Vestir roupas legais. Pintar o cabelo de uma cor diferente. Ser popular entre os amigos. Viver um grande amor. A adolescência é um período fundamental na construção da nossa persona. Para tal, precisamos de referências e inspirações que nortearão a "metamorfose" dos 12 aos 13 anos de idade até a fase adulta. E elas vêm, sobretudo, de gente próxima e de qualquer meio relacionado a estabelecer ou demonstrar comportamentos: cinema, televisão, mídias sociais…

É justamente nessa difusão de padrões que os contrapontos de Você nem Imagina, novo filme original da Netflix, fazem-se necessários para desmistificar diversas questões sobre um período da vida no qual nos achamos sábios, mas, na real, conhecemos vários nadas.

A trama engana com uma roupagem aparentemente clichê de comédia romântica teen: Ellie é a CDF tímida e sem amigos, Paul é o cara atlético e popular e Aster é a modelo que toda garota quer ser. Os três vivenciam um triângulo amoroso no qual Paul tem dificuldades para expressar seu amor por Aster, cabendo a Ellie ser o cupido.

Logicamente, essa novela desencadeia uma série de situações e reviravoltas, sendo da responsabilidade da diretora Alice Wu, que prega muitas peças ao longo da trama e as quebra de modo magistral, simplesmente mostrar as coisas como elas realmente são. Afastada do cinema desde 2004 para cuidar da saúde da mãe, ela retorna com uma leitura introspectiva da figura da protagonista, que é filha de um imigrante chinês. Pode soar como um simples detalhe, mas é fundamental para nos aproximar de pessoas reais e nos afastar dos paradigmas do gênero (e da vida como um todo, vai). 

As relações progridem de tal modo que nada aparenta ser o que é, sendo que tudo é exatamente daquele jeito: o de verdade, o tangível. Ou seja, nem todo bromance termina em namoro, nem todo mundo é o que faz parecer atrás do celular, nem toda forma de amar tem que ser rotulada. Wu quer que o espectador repense o real significado do amor e compreenda que — via foco em temática LGBTQ+ muito bem inserida — o amor é algo mais diverso, inconstante e complexo do que está convencionado no imaginário popular. 

Vale destacar também os enquadramentos repletos de significados e a divertida cena da troca de mensagens em um date, cujo uso criativo de recursos gráficos e simbólicos (emojis, por exemplo) rende a melhor experiência cinematográfica do "zap" até então.

Já dizia o poeta,  Reprodução/Netflix 

O elenco dá um show de química e carisma. Leah Lewis (The Good Doctor) encena uma Ellie incisiva, autêntica, empática e que contrasta perfeitamente com as inseguranças e fragilidades do novato e cativante Daniel Diemer, representando perfeitamente o cara popular que tem seus conceitos mudados pelo choque de realidade.

Na outra ponta do triângulo amoroso está a também iniciante Alexxis Lemire, que vende ser a garota padrão que todos idealizam de um jeito, mas que traz à tona um modo completamente diferente do que os outros pensam dela. Por fim, Collin Chou (Marco Polo), interpretando o pai de Ellie, evoca a figura paterna da própria diretora e é responsável por representar todos os pais, que buscam compreender como os filhos mudam em meio a tantas transformações da sociedade.

No mesmo levante de Fora de SérieVocê Nem Imagina faz jus ao título adaptado e expõe as coisas como elas realmente são, sobretudo o amor, indo além do que é retratado como estereótipo em diversas produções adolescentes e comédias destinadas a esse público.

O longa seria exibido no Tribeca Film Festival, interrompido pela pandemia do novo coronavírus, assim como outros festivais e eventos voltados para a Sétima Arte. Uma pena. Mas que bom que um filme necessário como esse agora está pertinho da gente, em casa.

Texto escrito por Fabrício Calixto de Oliveira via Nexperts.