Parece que faz 84 anos, mas a Netflix promoveu uma verdadeira ofensiva para emplacar o ambicioso Operação Fronteira na linha de frente de 2019, em uma tentativa de presentear seus assinantes com um encontro de brucutus à la Os Mercenários em versão compactada para as telinhas. 

O longa de J.C. Chandor, no entanto, teve audiência minguada e recepção morna por grande parte do público e da crítica, justamente por, de fato, ter sido um filme mediano. O fracasso pôs em xeque a produção de uma sequência, mas não a vontade de trazer um “Domingo Maior” de qualidade para a plataforma. Então, por que não apostar alto em outro projeto e recrutar nomes, digamos, mais inspiradores para cumprir a missão?

Baseada nos quadrinhos Ciudad, a trama de Resgate, novo filme da Netflix, isenta-se de qualquer complexidade narrativa e mostra um destemido mercenário que tem como objetivo resgatar o filho de um criminoso influente de Bangladesh. O jovem refém é alvo de uma disputa que envolve mais partes interessadas em sua posse, arrastando a cidade inteira para a treta. E é a cidade inteira mesmo.

O lendário dublê Sam Hargrave é o cara na direção, tendo Capitão América: Guerra CivilAtômicaJogos Vorazes, entre outros blockbusters na sua ficha no IMDb. Porém, quem toma os holofotes para si são os Irmãos Russo, comandando produção e roteiro. Eles foram responsáveis por dar vida a Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato. Apenas.

Na essência, Resgate é uma mescla de Rambo com John WickJason Bourne e mais um punhado de filmes dos anos 1980 e 1990, sem abrir mão da frenética ação bollywoodiana. Os estereótipos estão lá: o chamado do dever (que vem de helicóptero), a matança desenfreada, as agruras de um passado mal resolvido, as facetas malabarísticas para dar cabo dos alvos, o cenário vespertino asiático, cuja beleza esconde um submundo hostil dominado pela bandidagem, e por aí vai.

Deixa-se de lado um enredo conceitual para focar sequências de ação extremamente bem coreografadas e empolgantes, desde a montagem aguçada das lutas ao intuitivo jogo de câmeras que passam todos os combates a limpo. Existe um momento em especial, em plano-sequência, que é simplesmente fabuloso e prende a atenção de ponta a ponta. A produção como um todo acerta em cheio quando o foco é bagunça em Bangladesh.

Resgate empolga com excelentes cenas de ação (CRÍTICA) Reprodução/Netflix 
"Bora fazer uma bagunça nesta cidade?"

Thor Odinson, mais conhecido como Chris Hemsworth na vida real, tecnicamente interpreta ele mesmo no longa, embora seja isso que se espera do ator devido ao forte marketing pautado em sua imagem. Seu parceiro, encenado pelo novato Rudhraksh Jaiswal, esforça-se com algum êxito para criar o vínculo emocional entre os dois. 

Já Golshifteh Farahani (Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar) se restringe a brifar a missão e distribuir alguns tiros aqui e acolá, com David Harbour (Stranger Things), que tem a mesma tarefa e poderia ter sido mais bem aproveitado. O vilão impiedoso, o mercenário rival que tão breve se torna aliado, o braço direito incorruptível — entre outros chavões do gênero —, estão ali na presença de Randeep Hooda, Manoj Bajpai, Pankaj Tripathi e grande elenco de suporte.

Resgate é escapismo audiovisual em sua mais pura essência. A produção de Hargrave é capaz de entreter com sequências de ação estonteantes e realçadas pela beleza sépia da Ásia Meridional. Deixa-se o enredo abjeto e as obviedades do gênero brucutu de escanteio e voilá: tiro, porrada e bomba sob medida na quarentena do assinante da Netflix.

Texto escrito por Fabrício Calixto de Oliveira via Nexperts.