Já se pegou pensando em um mero detalhe que foi o estopim de uma grande mudança em algum evento da sua vida? Aquele passeio recusado, aquela mensagem não respondida, aquele conselho ignorado... Os rumos que tomamos em conjunto com os acasos moldam nossa conjuntura lá na frente. Fato. 

É nesta arquitetura que foi concebido o novo filme original da Netflix Um Amor, Mil Casamentos, releitura da produção francesa Plan de Table, de 2012. A versão revisitada vem com elenco cativante e uma premissa curiosa de expor diversas versões de um mesmo episódio, coisa que já vimos em outras cerimônias da sétima arte. Mas será que é possível prever acertos aqui?

Hayley vai se casar, e Jack, seu irmão, precisa fazer de tudo para que o matrimônio não saia do controle enquanto lida com a aparição de sua ex-namorada, de um antigo amor mal resolvido e de uma persona non grata louca na droga que pode estragar a festa  — elementos que originam uma série de situações caóticas e aleatórias. 

Quem sacramenta essa bagunça toda é o diretor Dean Craig, de Depois dos 30, Morte no Funeral e de outras obras que creditam sua mão em comédias do gênero.

Craig, no entanto, é ineficaz em todos os quesitos que se propõe a estabelecer no longa. O roteiro é limitado, bobo e fomenta situações extremamente artificiais, beirando o estarrecimento. Nesse pastiche, se misturam reviravoltas previsíveis, que mais ofendem a inteligência do espectador do que provocam alguma reação inusitada. 

Os entraves também conseguem barrar a evolução dos personagens. As coisas acontecem e não existe a sensação de que eles estejam progredindo para algum lugar. Começam de um jeito e terminam exatamente da mesma forma, de modo linear e genérico. 

Nem mesmo o efeito de ação e consequência é bem explorado aqui, se abreviando a uma ideia jogada na trama. Em tempos de Bandersnatch Telltale Games, fica difícil não exigir uma obra mais rebuscada em sua mecânica.

Momentos antes da desgraça acontecer Netflix/Reprodução 
Momentos antes da desgraça acontecer...

O elenco faz o que pode dentro dos revezes. Sam Claflin (Peaky Blinders) vive um protagonista forçadamente ingênuo e banal, enquanto seu affair, Olivia Munn (The Newsroom), não tem dimensão e está lá apenas para girar o “desenvolvimento” de Jack. 

A ex, Freida Pinto (The Path), e a irmã, Eleanor Tomlinson (Poldark), também têm pouco a contribuir. Por outro lado, Joel Fry (Game of Thrones) ainda diverte em função de um bom humor gesticular, e Jack Farthing (Blandings) também acerta nos desajustes de seu personagem. 

Demais figuras complementam o casório. Tim Key (Skins) interpreta um cara que é essencialmente chato, e o faz bem, além de Aisling Bea (The Fall), que ora ou outra arranca algum sorriso devido às suas inconveniências.

O que sobra no fim da festa é uma produção trivial que trai a confiança do espectador por não conseguir divertir na comédia e muito menos envolver no romance. Os múltiplos desfechos, por sua vez, também decepcionam, uma vez que são inteiramente conceituais e desenvolvidos de qualquer jeito. 

O conselho aqui é procurar relacionamentos mais promissores em outras produções da gigante do streaming.

Texto escrito por Fabrício Calixto de Oliveira via Nexperts.