3%, a série distópica brasileira da Netflix, chega a sua terceira temporada em junho e tem potencial para continuar contando a história de Michele, Rafael, Joana e companhia por mais tempo. Em um novo pacote de oito episódios, os fãs poderão ver a trama evoluir em vários sentidos, mas continuar bastante familiar em outros.

Eu pude assistir à terceira temporada antecipadamente e tenho alguns pensamentos para compartilhar: houve um bom salto de qualidade técnica na produção, bastante flashbacks para encaixar partes da história e um novo conflito interessante.

O contexto

A temporada começa com uma surpreendente reunião de personagens que, até então, eram adversários. Isso acontece na Concha, o cenário principal da temporada. Michele, que assume o papel de fundadora desse refúgio após a morte de Fernando, aceita Marco na nova colônia humana sem pestanejar, talvez seguindo à risca o mote da Concha: “todos são bem-vindos”.

3%: Maralto já não é mais o objetivo do processo na 3ª temporada (crítica)

Já no primeiro episódio, quando a Concha entra em total operação, com eletricidade, água e comida em abundância, a colônia é atingida por uma tempestade de areia arrebatadora. A destruição é imensa e compromete totalmente a capacidade do lugar de produzir alimento e coletar água.

A curiosa reunião de personagens serve para dar uma espécie de redenção duvidosa para Marco, mas o fato é que ninguém confia em ninguém por ali. E é por isso que a Concha praticamente sucumbe já na primeira crise.

Como no Continente, os moradores da Concha agora se preparam para racionar. A comida que sobrou não será suficiente para todos, então a líder Michele resolve fazer um processo seletivo, e apenas uma pequena fração dos moradores poderá ficar. O resto terá que voltar para o Continente.

Assim como no processo pelo qual os jovens passaram para entrar no Maralto, a seleção da Concha é feita de provas com objetivos obscuros e, eventualmente, acaba produzindo resultados injustos. A tensão sobe, e a Divisão — a Polícia do Maralto — tenta se aproveitar da situação. É até aqui que os trailers da série chegam, e já é mais do que o suficiente para imaginar a briga que vai rolar nessa temporada.

3%: Maralto já não é mais o objetivo do processo na 3ª temporada (crítica)

Salto no tempo

Do fim do segundo para o início do terceiro ano, há um lapso de mais de 1 ano. Por conta disso, foi necessário explicar esmiuçadamente o que está acontecendo. A Concha aparece do nada, quando só sabíamos que Michele e Fernando queriam morar em um lugar alternativo que não fosse Maralto ou Continente.

Esse salto no tempo é resolvido com uma série de flashbacks sendo executados para cada um dos personagens. A maioria é revelada de forma oportuna, mas pelo menos um deles, referente ao Rafael, é quase um tapa-buraco para uma situação que não tinha sido semeada adequadamente. Eu gosto de surpresas, mas não quando elas caem do céu sem pistas minimamente visíveis para seguir.

3%: Maralto já não é mais o objetivo do processo na 3ª temporada (crítica)

Novos cenários

Diferentemente das anteriores, a terceira temporada de 3% tem composições dignas de uma série de qualidade da Netflix. Várias cenas foram gravadas em um deserto estonteante. Os ambientes internos da Concha também são totalmente novos, bem melhores do que vimos no Maralto e no Continente.

Falando em Continente, os cenários da cidade moribunda melhoraram. Há uma cena em que Joana foge correndo por um ferro-velho com carcaças de aviões decrépitos. É nesse momento, inclusive, que vemos uma pista concreta de que o Continente realmente fazia parte do Brasil, com uma bandeirinha aparecendo por ali.

Parece bobagem falar sobre isso, mas a pobreza de cenários foi uma crítica recorrente nos anos anteriores e agora está resolvida. Houve ainda um avanço na qualidade dos efeitos em CG, na fotografia e na apresentação visual da série como um todo.

3%: Maralto já não é mais o objetivo do processo na 3ª temporada (crítica)

Mas a temporada é boa?

Se você viu e gostou das duas primeiras temporadas de 3%, não ficará decepcionado com os novos episódios. O salto no tempo e seus efeitos podem incomodar, mas o novo conflito referente à sobrevivência na Concha é, de fato, interessante.

Porém a roda não foi reinventada. A série continua criticando a meritocracia e a ilusão que seria “fazer uma seleção justa”. Trata-se de uma premissa que já foi utilizada pelo programa uma vez, mas agora está sendo provada pelo outro lado. Quem antes sofria as injustiças agora as promove. Nada imprevisível, mas sua execução consegue prender o espectador, especialmente os fãs de distopias para a TV.

Ao passo que a premissa e o caminho geral da série tornam 3% interessante, alguns problemas persistem. Não há uma atuação exemplar para ajudar a gostar de alguém do elenco e todos estão em uma mesma média. Há, inclusive, a chance de você ficar meio decepcionado com alguns novos personagens.

3%: Maralto já não é mais o objetivo do processo na 3ª temporada (crítica)

Entre os que já conhecíamos, a comandante Marcela não consegue ocupar totalmente o espaço deixado pela morte de Ezequiel, e o foco nela faz o Maralto parecer apenas uma força militar se impondo na Concha e no Continente. Com isso, as intrigas e o jogo político mudam de lugar, saindo dos corredores da ilha desejada para fomentar reviravoltas na nova colônia.

E, sim, essa temporada é boa para a “média 3%”. O programa certamente não será lembrado como a melhor série nacional da história, mas é uma excelente representação de um possível futuro (ou presente) distópico para a sociedade brasileira: segregada, violenta e desconfiada.

Este texto foi escrito especialmente por Leonardo Müller, redator do TecMundo, um site da empresa NZN assim como o Minha Série.