Quando Rebecca Bunch largou o emprego em Nova York para perseguir um ex-namorado na pequena cidade de West Covina, era difícil imaginar como essa sequência de péssimas decisões poderia acabar bem para todo mundo. Mas quatro anos, 61 episódios e mais de 150 canções depois, Crazy Ex-Girlfriend chega ao fim mostrando que finais felizes também podem ser cheios de nuances.

A comédia romântica musical do canal CW nunca escondeu que usava as paródias aos clássicos do gênero principalmente para fazer humor, mas também sempre acertou ao abordar assuntos mais sérios e desenvolver os personagens para que eles fossem mais do que simples caricaturas. Tudo isso está presente no final impecável de “I’m in Love”.

Toda a última temporada de Crazy Ex-Girlfriend foi dedicada a mostrar como esses personagens evoluíram ao longo dos anos. Em vários casos, fica até difícil tentar lembrar como cada um se comportava quando essa história começou, o que só nos deixa mais interessado em relembramos a história da série.

Mas se estamos aqui (e pouquíssima gente acompanhou essa história até aqui) é por causa de Rebecca. Interpretada pela também showrunner e roteirista Rachel Bloom, a protagonista passou por uma jornada de autodescoberta longa e trabalhosa em busca da felicidade ideal que ela cresceu vendo nas peças de teatro. No entanto, nem é preciso revelar a decisão final da personagem em relação ao seu quadrilátero amoroso para saber que a vida não funciona assim.

Quando encontramos Rebecca em “I’m in Love”, ela parece pronta para aceitar seu destino de escolher entre um dos três homens dos sonhos e ter a vida perfeita que sempre quis. Essa questão acaba sendo complicada exatamente pelo desenvolvimento dos personagens, responsável por transformar todos os principais interesses românticos dela ao longo da série em boas escolhas.

Mas não estaríamos falando de Crazy Ex-Girlfriend se os problemas parassem por aí. Parece existir algo de errado com Rebecca. Alguma coisa que, como a própria personagem diz, não foi resolvida com os antidepressivos e as intermináveis sessões de terapia. É um momento importante para a trama e que também serve como lembrete definitivo de que poucas comédias souberam lidar com saúde mental de forma tão honesta.

Fica cada vez mais claro que uma das principais preocupações de “I’m in Love” está em reviver os elementos que fizeram de Crazy Ex-Girlfriend uma série tão especial; a amizade entre Paula e Rebecca é o ponto de partida para uma epifania contada através de um número musical, como não poderia deixar de ser, e cada personagem tem seu pequeno momento de encerramento durante o episódio.

Mas talvez a palavra ‘encerramento’ nem seja a melhor forma de descrever o que acontece nos últimos instantes de Crazy Ex-Girlfriend. Depois de se desvencilhar do final clichê de comédia romântica que parecia inevitável, a série parece contente em aceitar que a maioria dos finais é apenas o começo de uma nova história; e nós nem sempre precisamos saber tudo o que acontece depois de certo ponto.

Tudo isso é para dizer que a série não acredita em ideais românticos de almas-gêmeas e “metades da laranja”. Melhor ainda, ela percebe o problema desses princípios e trabalha para desconstruí-los, sem precisar ser cínica ou pessimista para conseguir fazer isso.

Por melhores que sejam, finais de séries sempre vão deixar saudade em quem acompanhou a produção por anos, mas é animador ver uma obra que sempre lutou contra o fantasma do cancelamento sendo encerrada do jeito que suas criadoras quiseram. Nos despedimos de Rebecca, mas ficamos no aguardo do que a dupla Rachel Bloom e Aline Brosh McKenna prepara para o futuro.

Este texto foi escrito por Felipe Autran especialmente para o Minha Série.