Pode ficar tranquilo, pois esta é uma crítica SEM SPOILERS da série Coisa Mais Linda.

No dia 22 de março, a Netflix lançou não só sua mais nova série brasileira, mas a mais brasileira de suas produções até então. Coisa Mais Linda é um retrato do nascimento da Bossa Nova no Rio de Janeiro do final dos anos 50. Além disso, é praticamente um manifesto sobre a posição da mulher na sociedade e como, em mais de 60 anos, ela ainda não é tão diferente quanto gostaríamos.

É inteligente fazer com que todos os dramas e obstáculos enfrentados pelas protagonistas sejam (não tão sutilmente) espelhos de discursos atuais. A mulher que merece ganhar menos, com o argumento de que sua fisiologia a fez menos apta ao trabalho; a “assassina de bebês” que decide tomar o controle de sua própria vida; a mulher negra que, independentemente de seu sucesso, sempre causará estranhamento à elite... E a lista continua! Bissexualidade, abuso doméstico e outros temas tão contemporâneos, mas enraizados (e evitados) a décadas na cultura brasileira.

Uma série de época, Coisa Mais Linda é brilhante representação do Brasil atual (crítica)

Com uma fotografia belíssima e uma reconstituição de época louvável por parte da direção de arte da série, Coisa Mais Linda exalta as paisagens cariocas enquanto acompanhamos as histórias de Maria Luíza, Lígia (Fernanda Vasconcellos), Adélia (Pathy Dejesus) e Thereza (Mel Lisboa).

Mas, verdade seja dita, Maria Casadevall em seus monólogos que emulam Marvelous Mrs. Maisel simplesmente não convence – ainda que o roteiro lhe dê boas falas. Também não ajuda a atriz que Malu seja uma protagonista menos carismática que suas três colegas de cena.

Uma série de época, Coisa Mais Linda é brilhante representação do Brasil atual (crítica)Maria Casadevall é Malu, a protagonista de Coisa Mais Linda

Como a própria Adélia diz em uma cena, o grande desafio da moça é provar que pode ser dona da própria vida, mas se tudo der errado, ela continua sendo a filha rica de um fazendeiro e sua punição é viver uma vida “chata” que não escolheu para si. Um drama válido, mas bem menos relacionável com a maioria dos brasileiros do que ter que trabalhar para garantir seu sustento ou sofrer algum tipo de violência.

Casadevall pode, por vezes, parecer só ter um tom para a ex socialite paulista, mas vale dizer que isso não tira seu mérito nas cenas mais dramáticas, onde consegue transparecer o peso das traições e escolhas feitas.

Uma série de época, Coisa Mais Linda é brilhante representação do Brasil atual (crítica)Leandro Lima é o músico Chico Carvalho em Coisa Mais Linda

Já Fernanda Vasconcellos, Pathy Dejesus e Mel Lisboa acertam em todas as nuances de suas personagens. Todas passam por um processo de mudança sensacional que exalta suas falhas e humanidade. Thereza começa sendo a mais “à frente do seu tempo”, mas logo percebemos que mesmo ela não é tão corajosa e está presa a traumas do passado.

Lígia faz o inverso. Começa julgando às outras e confortável em sua posição privilegiada, até conseguir se desvencilhar da situação e tomar medidas drásticas para a época. Adélia transita entre ser a mais realista – por ter muito mais em jogo ao arriscar um sonho – e o desejo de viver um conto de fadas que a vida (e as regras da época) a proíbem.

Uma série de época, Coisa Mais Linda é brilhante representação do Brasil atual (crítica)

Sejamos justos, o elenco masculino também faz sua parte, com destaque para Ícaro Silva, o Capitão, e Gustavo Vaz, o violento Augusto Soares. Homens tão diferentes um do outro quanto reais.

Outro aspecto negativo que precisa ser apontado é que, a partir do final do quinto episódio, todos os desfechos parecem se apressar para se resolver magicamente. E a cena final mais parece uma cláusula contratual da Netflix para deixar um gancho “impactante” para uma possível (e a este ponto, provável) segunda temporada.

Resumindo, a balança pende muito mais para o positivo do que o negativo. Coisa Mais Linda tem uma produção caprichada, atuações (em sua grande maioria) primorosas e trata com perfeição de temas relevantes. Daquelas séries que dão orgulho da qualidade que o audiovisual no Brasil tem, e teria ainda mais se grandes plataformas o apoiassem além da produção de comédias de baixo orçamento.

Uma série de época, Coisa Mais Linda é brilhante representação do Brasil atual (crítica)

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