Cuidado: o texto a seguir contém spoilers do filme Nós

O cineasta Jordan Peele está brilhando nos cinemas com o filme de terror Nós (Us, no título original), que, além de ser sucesso em bilheteria, está ganhando uma legião de fãs com seus diversos easter eggs. Uma das principais referências para a história, porém, pode acabar passando despercebida por muitos brasileiros: Hands Across America.

Se você já viu o filme e não entendeu muito bem todo o lance de os “vilões" ficarem de mãos dadas em uma linha, confira o que foi e como o evento de arrecadação — que realmente aconteceu — se tornou um ponto importante para a trama de Peele.

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O que foi o Hands Across America?

Hands Across America: entenda o evento e como ele foi parar no filme NósHands Across America sendo realizado na Filadélfia (EUA) em 1986 | Imagem: Wikipedia

Em 1986, o governo dos Estados Unidos realizou uma campanha para ajudar instituições de caridade e arrecadar cerca de US$ 50 milhões: o objetivo era organizar, no dia 25 de maio, uma grande fila com pessoas de mãos dadas. Quem tivesse interesse em participar precisava pagar uma quantia simbólica de US$ 10 para garantir seu lugar na linha, que também contou com a presença de políticos, celebridades e até personagens da cultura pop.

O governo investiu pesado e queria superar a campanha do bem-sucedido single "We are the world", lançado no ano anterior. A organização até fez uma música-tema para o Hands Across America, com a participação de grandes nomes dos anos 1980 em um vídeo, incluindo a banda Toto e personalidades como Barbra Streisand, Oprah Winfrey e o robô C-3PO, personagem de Star Wars.

Apesar de todo o esforço, a iniciativa foi considerada um imenso fracasso: o investimento em divulgação fez o Hands Across America custar entre US$ 14 e US$ 16 milhões, e a arrecadação ficou na casa dos US$ 30 milhões. Com isso, as instituições beneficiadas pelo movimento só receberam US$ 15 milhões, longe da meta inicial de US$ 50 milhões.

Como o evento foi parar no filme?

Além de ter sido um pesadelo para o governo dos Estados Unidos, o Hands Across America tirou o sono das crianças dos anos 1980 com alguns de seus comerciais bizarros, o que serviu de inspiração para o diretor. Falando ao site Uproxx, Peele revelou que assistiu a uma propaganda do evento na MTV, com imagens assustadoras de milhares de olhos e dedos para representar 6,5 milhões de pessoas que participariam da corrente.

A estética sinistra daquela produção foi suficiente para fazer o diretor colocar um vídeo da iniciativa logo na abertura de seu filme, enquanto a jovem personagem Red (antes de trocar de lugar com Adelaide) assiste à televisão. O contato da protagonista com o Hands Across America fez com que ela levasse o mantra do evento para o subterrâneo após ser capturada por sua doppelgänger.

Devido a essa relação da salvadora dos clones com o evento, a realização de uma corrente humana acaba se tornando o principal objetivo dos “acorrentados” ao subirem para a superfície. É interessante notar que durante todo o filme vemos referências ao Hands Across America, e não apenas no começo e no fim do longa. Enquanto o caos toma conta dos Estados Unidos, sempre é possível ver os doppelgängers tomando seu lugar na fila para realizar o cordão humano.

Hands Across America: entenda o evento e como ele foi parar no filme NósPor que esse cara sinistro está parado no meio da praia? Ele é um dos primeiros a garantir seu lugar no Hands Across America | Imagem: Universal Pictures

Antes de Nós ser lançado nos cinemas, Peele chegou a twittar que a obra se trata de um filme de horror, talvez fazendo menção ao fato de ter colocado nele dois dos principais medos que o assombravam na infância: doppelgängers e a sinistra e desastrosa campanha do Hands Across America.

Nós está em cartaz nos cinemas brasileiros e, assim como Corra!, vale a pena conferir o filme mais de uma vez nas telonas, principalmente após conhecer todo seu universo e a atmosfera por trás do longa.

Você curtiu a segunda produção cinematográfica de Jordan Peele? Tem alguma teoria sobre a trama? Deixe sua opinião nos comentários!

Este texto foi escrito por Mateus Mognon via nexperts.