Após estabelecer uma carreira bem-sucedida como comediante, Jordan Peele pegou o mundo de surpresa em 2017 ao apresentar seu primeiro longa-metragem como diretor e roteirista: Corra! se tornou um marco para o gênero de terror e rendeu ao cineasta o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Peele dá sequência à sua nova fase profissional com Nós (Us), um inquietante conto de doppelgängers/duplos que analisa o que há de pior na humanidade – e em nós mesmos.

A produção, que estreia nesta quinta-feira (21) nos cinemas brasileiros, traz a atriz Lupita Nyong'o (oscarizada por 12 Anos de Escravidão) no papel de uma mãe que precisa defender seus filhos e lutar para sobreviver quando cópias idênticas de sua família aparecem na porta de sua casa.

O cineasta faz uma excelente construção da narrativa, usando o trauma de infância da protagonista – em uma sequência que abre o longa-metragem – como motivo não apenas para explicar o surgimento dos doppelgängers, mas também para tratar de segredos e de coisas que preferimos esconder ou esquecer.

A presença dos duplos reforça a ideia dos “monstros” que mantemos dentro de nós, e o filme imagina o que aconteceria se o nosso pior “eu” se materializasse e passasse a nos perseguir – como uma sombra, ou pior, um “outro” igual.

Assim como em Corra!, o terror de Nós é muito mais psicológico e se estabelece pelas relações entre os personagens e pela ambientação de suspense – mas ainda há sangue, violência e cenas perturbadoras na produção.

O que Nós fica devendo em relação ao primeiro trabalho de Peele é em crítica social. Corra! se consagrou como uma obra de terror diferenciada pela inteligência e pela profundidade com que tratou a questão racial na sociedade americana. Nós não tem o mesmo impacto e talvez nem almejasse isso (a comparação não é justa para ninguém), mas suas qualidades certamente estabelecem Jordan Peele como um dos autores mais interessantes da contemporaneidade.