A Netflix fez por onde e conseguiu: Roma está, indiscutivelmente, entre os maiores destaques do Oscar 2019. Com dez indicações, o longa já é um dos trunfos mais bem-sucedidos do streaming nos últimos anos – sucesso que tem relação com a história, que evidencia as peculiaridades da vida no México, mas que também conquistou o público por sua sensibilidade e por interpretações inspiradas.

Mais do que se preocupar com a estética de Roma, rodado em preto e branco, Alfonso Cuarón, diretor do filme, revelou em entrevista recente o que fez nos bastidores para estimular que seus atores entregassem performances mais viscerais e convincentes. O método, nada tradicional, consistiu em revelar pouco a pouco as falas e o roteiro da trama. Em vez de liberar o roteiro e os diálogos do longa na íntegra, Cuarón esperava para que os atores tivessem pouco tempo para ler e memorizar as falas.

Foto: Reprodução/IMDb

Às vezes, o diretor optava por não revelar uma linha de diálogo sequer aos atores. “Houve casos em que eu simplesmente dizia a eles o que queria que falassem em cena. Em outras ocasiões, eu propunha dinâmicas incomuns entre grupos de atores”, explicou, mostrando como fazia para afastar o elenco de interpretações engessadas e previsíveis – abordagem que foi a base de Cuarón em todo o processo de Roma.

Mistério no set rendeu interpretações inspiradas

A tática de Cuarón combina com a proposta de Roma. O filme, que está envolto por lembranças da infância do diretor no México, é um projeto que carrega originalidade em sua essência. Ao jogar com os atores na tentativa de induzi-los a oferecer performances mais autênticas, Cuarón criou uma espécie de tensão que fazia com que eles não tivessem como prever o que seria falado em cena, ou seja, deu a Roma um tom de improviso que não costuma ser explorado com frequência em Hollywood.

Foto: Reprodução/IMDb

Para contar a história de Cleo (Yalitza Aparicio, indicada ao Oscar de Melhor Atriz), uma empregada doméstica mexicana de origem indígena que trabalha para uma família de classe média, Cuarón optou por valorizar o aqui e o agora. “A única maneira de trazer certas memórias à tona é a partir do momento presente. Ele desvenda com mais facilidade os nossos interesses e a nossa concepção de vida”, comentou.

Cuarón celebra indicações, mas lamenta atraso

Há poucos dias, Alfonso Cuarón divulgou um comunicado em que agradeceu à Academia pelas dez indicações de Roma ao Oscar, lamentando, porém, que histórias como a sua tenham demorado tanto a serem acolhidas. “É muito gratificante ver que um filme (...) que fala sobre a vida no México está sendo celebrado. Estamos vivendo um momento único, em que a diversidade está, enfim, sendo abraçada pela audiência – visibilidade que incentiva nossa indústria (...), além de criar mais oportunidades para que novas vozes (...) sejam valorizadas, mas um testemunho, também, do atraso com que estamos chegando a esse momento, no qual as histórias dos invisibilizados ao nosso redor, os trabalhadores domésticos e as mulheres indígenas, são colocadas no centro das nossas narrativas. Compartilho isso com meu elenco, minha equipe, os produtores e, ainda mais importante, com minha família e o México”, disse.

Roma, que estreou na Netflix em dezembro de 2018, também tem sido exibido no cinema, inclusive no Brasil. Além dos prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz, o longa concorre às estatuetas de Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhor Direção de Arte. A cerimônia do Oscar acontece no último domingo de fevereiro, próximo dia 24, em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Este texto foi escrito por Rodrigo Sánchez via nexperts.