Alguns anos separam a Netflix de início de carreira, que cresceu enviando DVDs por correspondência, da bem-sucedida empresa de streaming de hoje. Ao longo dos anos, a Netflix foi acumulando experiência e descobrindo as melhores estratégias para conquistar a sua atenção e se tornar um player de peso na indústria do entretenimento. Uma dessas estratégias, acredite, remonta ao tempo (e ao apelo) das capas de DVD.

De acordo com um post recente publicado no blog de um grupo de programadores da Netflix, a empresa de streaming usa, entre outros métodos de persuasão, um algoritmo capaz de personalizar as capas de séries e filmes para cada usuário. Desse modo, o sistema aprende a convencer o usuário a assistir a atrações para as quais ele talvez nem desse bola se elas não fisgassem a atenção dele com uma capa específica.

Funciona assim: quando você abre o menu da Netflix e pesquisa um filme, o sistema escolhe uma capa condizente com os seus hábitos pessoais. Ou seja, em um exemplo hipotético, se você pesquisar Anaconda (1997) no menu do serviço, pode ter acesso tanto a uma capa só com a monstruosa cobra que dá nome ao filme quanto a uma que exiba a atriz Jennifer Lopez em destaque.

É tudo uma questão de costume. Se você for do tipo que adora maratonar filmes de ficção científica, o sistema identifica que a imagem de uma criatura macabra como a cobra pode ter mais apelo para você do que a de um ator do elenco. Se, do contrário, você não for lá muito chegado a obras fantasiosas, é provável que o sistema priorize a exibição de uma capa com a imagem dos atores.

Quer mais um exemplo? Se pesquisar o filme Gênio Indomável (1997), a probabilidade de ver uma imagem do ator Matt Damon aos prantos será maior se você for um fã de filmes dramáticos. Já se a sua pegada forem as comédias, a Netflix pode preferir exibir uma imagem de um Robin Williams sorridente – nada que altere a essência do filme, só a sua inclinação a assisti-lo ou não.

Maioria julga filmes pela capa

Por incrível que pareça, as capas ainda exercem uma influência enorme sobre as decisões dos espectadores. Em 2016, um instituto de pesquisa norte-americano descobriu que elas são o foco de atenção de pelo menos 82% dos usuários da Netflix – o que faz a empresa disponibilizar até mesmo dezenas de imagens diferentes para uma mesma obra, todas organizadas por características específicas.

Pode parecer bobeira, mas esse é um bom exemplo de como as preferências do espectador, e não só as vontades de Hollywood, têm começado a definir algumas das hierarquias da indústria. Não importa que um determinado ator seja a grande estrela de um filme: se você tiver mais apreço por outro que atua no mesmo longa, a tendência é de que o serviço tente convencê-lo com a capa do seu ator preferido.

A estratégia tem se mostrado eficaz, mas alguns críticos já a consideram invasiva. Há quem acredite que, na tentativa de influenciar o usuário a assistir às obras com as quais tem mais afinidade, os serviços de streaming podem acabar diminuindo drasticamente a descoberta de obras novas e diferentes, que também têm o potencial de agradar a um espectador específico, com gostos muito particulares.

Qualquer que seja a opinião circulando a esse respeito, a verdade é que a Netflix não deve deixar de usar um recurso que tem ajudado a engordar os seus números. De acordo com um reporte de outubro de 2018, a empresa já ostenta um volume de cerca de 130 milhões de assinantes globais – tendência crescente, da qual ela certamente não vai abrir mão nos próximos anos. Que sigam as maratonas.

Este texto foi escrito por Rodrigo Sánchez via nexperts.