Trabalhar com efeitos especiais no cinema é um desafio e tanto. Com tecnologias que ficam rapidamente obsoletas e espectadores cada vez mais exigentes, não há nada que Hollywood possa fazer a não ser trabalhar incansavelmente para desenvolver novas técnicas capazes de produzir efeitos que não pareçam artificiais aos olhos dos cinéfilos de plantão – caso do bem-sucedido Thanos, do último Vingadores (2018).

Em Guerra Infinita, lançado em abril do ano passado, a Marvel superou as expectativas e levou para as telas um Thanos extremamente sofisticado e convincente. O segredo do sucesso? Machine learning, ou seja, a capacidade de, a partir do acesso a uma quantidade imensa de dados e informações, os sistemas de computação gráfica se aperfeiçoarem praticamente sozinhos, ajudando as equipes de efeitos especiais.

Graças a esse avanço, Thanos, um personagem criado por meio de computação, ganhou as telas do cinema com uma riqueza de detalhes sem precedentes, muito mais convincente que aquela observada em filmes anteriores. Para as equipes de efeitos visuais, o desafio era claro: ou eles repensavam a maneira de capturar a performance do ator que seria a base do personagem virtual ou acabariam repetindo os erros do passado.

Para Kelly Port, supervisora de efeitos na Digital Domain, responsável por Vingadores: Guerra Infinita, o machine learning facilitou o trabalho. “Sem [essa tecnologia], tudo seria mais difícil, especialmente por conta de cada pequeno detalhe em que teríamos de trabalhar manualmente, como os milhões de pontinhos a serem articulados no rosto de Josh [Brolin, ator que interpretou Thanos]”.

Para construir um Thanos verdadeiramente convincente, com traços e movimentos naturais, a Digital Domain lançou mão de um software de machine learning próprio, chamado Masquerade, além de recorrer ao Medusa, um sistema de leitura de movimentos de última geração desenvolvido pela Disney Research, baseada em Zurique, na Suíça. Para finalizar, um terceiro software, Direct Drive, foi utilizado para traduzir toda essa informação diretamente para o programa de computação gráfica.

Trabalho duro, mas que deu certo

Durante as filmagens, o ator Josh Brolin chegou a ter de lidar, em alguns momentos, com até 150 sensores colados ao seu rosto, além de se submeter a um escaneamento superdetalhado, feito por câmeras de altíssima definição. Os softwares da Digital Domain faziam a leitura dos movimentos e alimentavam os algoritmos com as devidas interpretações, que eram aperfeiçoadas por meio de comparações com um banco de expressões faciais. A partir daí, cabia à Inteligência Artificial escolher as melhores feições para Thanos.

Achou complexo? Pois o trabalho não parou por aí. Os sensores permaneceram instalados no rosto de Brolin até mesmo durante os intervalos das gravações – momentos em que, fora do personagem, o ator voltava a se movimentar com mais naturalidade, alimentando os softwares com informações que mais adiante eram cruzadas com as expressões faciais dele em cena, interpretando Thanos.

Essa técnica combinada, que captura as expressões dos atores dentro e fora de cena, tem se mostrado produtiva. Em filmes anteriores, como A Bela e a Fera (2017), o escaneamento facial de alta resolução costumava ser feito quando o ator não estava em cena, o que comprometia a espontaneidade do trabalho e acabava por limitar, de certa forma, o repertório de movimentos capturados pelos programas de computação.

Em Vingadores: Guerra Infinita, a equipe de efeitos visuais teve a oportunidade não só de capturar as expressões faciais de Josh Brolin dentro e fora de cena, mas também de estudar e comparar as performances do personagem virtual com as do ator em carne e osso, aprimorando os softwares de criação e fazendo os ajustes necessários para que Thanos parecesse ainda mais espontâneo na tela do cinema – trabalho complexo, mas que deixou os algoritmos mais inteligentes e eficazes.

Em entrevista à equipe da revista Variety, Dan Deleeuw, supervisor de efeitos especiais da Marvel Studios, disse que tinha plena consciência de que estava diante de algo inovador, que as pessoas nunca tinham visto, e que ficou feliz por Brolin ter reconhecido que o time de efeitos visuais foi capaz de traduzir para a computação gráfica tudo o que ele efetivamente fez em cena. “Brolin é um grande colaborador, e Thanos é uma de suas maiores performances no cinema”, completou.

Ainda que os avanços da Inteligência Artificial permitam produzir filmes com efeitos muito mais realistas e convincentes, o trabalho humano continuará sendo a base de tudo. A boa notícia é que, com processos mais simples e eficazes, as equipes de efeitos especiais poderão experimentar e ousar cada vez mais nos toques criativos – e isso, graças à tecnologia, sem parecer fake. Sorte a nossa, e que venham os próximos filmes!

Este texto foi escrito por Rodrigo Sánchez via nexperts.