Recém-chegado aos cinemas, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, segundo longa do spin-off de Harry Potter, mexeu (para o bem e para o mal) com os ânimos dos fãs de J.K. Rowling. O filme, que encanta os olhos com um sem-fim de efeitos visuais estonteantes, pode ter deixado um nó apertado demais na cabeça dos espectadores mais atentos, graças a uma virada que põe em xeque a interpretação de uma série de questões sobre Harry Potter e que traz à tona inconsistências que só serão desfeitas (ou confirmadas) no próximo filme da saga, em 2020.

A polêmica (spoilers à vista, prossiga com cuidado!) gira em torno da história de Credence Barebone (Ezra Miller). No fim de Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016), o personagem é o Obscuro, que protagoniza o embate final com Grindelwald (Johnny Depp) e Newt Scamander (Eddie Redmayne) e termina a cena aparentemente derrotado, figurativizado por um mar de farrapos pretos voando pelo ambiente. O episódio deixou no ar uma dúvida que persistiu por 2 anos e só foi elucidada agora, com o lançamento de Os Crimes de Grindelwald: Credence morreu?

Não, ele não morreu – e isso fica claro logo no começo do filme. O personagem, que descobre ser adotado, mas ignora quem sejam seus pais, está em Paris, para onde foi na tentativa de descobrir suas origens. Em Os Crimes de Grindelwald, o espectador começa a desfazer esse nó, sendo levado a crer que o rapaz é irmão de Leta Lestrange (Zoë Kravitz), mas só até descobrir que, na infância, ela trocou os bebês durante o naufrágio do navio em que viajava, fazendo com que o verdadeiro Lestrange morresse afogado e que Credence fosse poupado.

É no fim do longa que as coisas começam a fazer mais sentido (para depois ficarem confusas de novo): Credence descobre, por intermédio de Grindelwald, que seu nome verdadeiro é Aurelius Dumbledore e que seu irmão (sim, o todo-poderoso Alvo Dumbledore) estaria envolvido em um plano que põe sua vida em risco. Na sequência, a fênix que atua como guardiã da família Dumbledore surge na cena, como se confirmasse a revelação, mas trazendo outra dúvida: por que ela não apareceu antes, nas diversas vezes em que Credence esteve em apuros? Estaria Grindelwald blefando?

As peças parecem não se encaixar. Se nos basearmos nos livros de Harry Potter, que são a fonte mais confiável da história, Alvo tem apenas um irmão, Aberforth, além de Ariana, que possivelmente teria sido um Obscuro, como Credence. Ariana morreu acidentalmente aos 14 anos de idade, durante uma batalha entre Alvo e Grindelwald – fato que marcou a vida de Alvo para sempre. Se Credence for de fato um Dumbledore, muita coisa vai ficar explicada sobre suas super-habilidades como bruxo, mas de onde ele teria surgido? É aí que aparecem as incertezas e o nó fica mais apertado.

Possibilidades para entender o caso Credence

Por mais que, em um primeiro momento, a reviravolta de Credence pareça não fazer sentido, é preciso levar em conta a hipótese de que Grindelwald tenha mentido – o que é bastante improvável, especialmente se considerarmos o fato de que Rowling costuma honrar a legitimidade das revelações que faz no encerramento dos livros e filmes que assina. Blefar com a audiência não é do feitio da escritora, mas essa também não é uma hipótese impossível, ainda que seja estranho pensar que Aurelius nunca tenha sido mencionado antes, mesmo sendo irmão de Alvo Dumbledore.

Outro aspecto importante na tentativa de encaixar as peças do fim de Os Crimes de Grindelwald é a questão temporal. Percival Dumbledore, pai de Alvo, foi preso em Azkaban por volta de 1890, quando o filho tinha cerca de 10 anos. Credence e Alvo, por sua vez, têm em torno de 20 anos de diferença entre si, o que leva a crer que, se a revelação de Grindelwald for verdadeira, Credence teria sido concebido quando Percival já estava preso (ou até mesmo morto) – mas como? Isso talvez reforce a ideia de que Grindelwald tenha blefado para tentar angariar a fidelidade de Credence.

Essa não é a única possível mudança na linha do tempo de Os Crimes de Grindelwald, que chega a mostrar uma cena da professora Minerva McGonagall (Fiona Glascott) atuando como professora em Hogwarts no fim da década de 20, mesmo que, de acordo com cálculos feitos a partir de informações sobre a biografia dela no site Pottermore, portal oficial do universo mágico de J.K. Rowling, ela tenha nascido em 1935. Seria essa mais uma inconsistência na construção do enredo ou uma livre adaptação que terá sua justificativa apresentada mais adiante?

Dúvidas à parte, uma coisa é certa: J.K. Rowling não seria capaz de confundir a cabeça dos fãs sem ter uma explicação bombástica na manga, prestes a ser revelada. A resposta para o mistério de Credence, porém, só deve vir em 2020, para quando está prevista a estreia do próximo Animais Fantásticos – que, para a alegria dos fãs brasileiros da saga, deve se passar no Rio de Janeiro. A questão é: como aguentar até lá sem pensar em inúmeras possibilidades para o desfecho dessa história? É hora de apostar as fichas e torcer, enfim, para que Rowling seja bem convincente.

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Este texto foi escrito por Rodrigo Sánchez via nexperts.