De R$ 19,90 em R$ 19,90, parece que a Netflix jamais chegaria a um ponto em que conseguiria realizar contratações milionárias como a de Kenya Barris, criador de Black-ish, com quem a empresa fechou contrato de 3 anos por US$ 100 milhões.

E, à primeira vista, é natural questionar de que forma a plataforma de streaming consegue organizar suas finanças de forma a conseguir manter essas contratações poderosas. Além de Barris, entraram para a folha de pagamento o criador de American Horror Story, Ryan Murphy, e a criadora de Grey's Anatomy, Shonda Rhimes. O primeiro, para um contrato de 5 anos, valendo US$ 300 milhões, e a segunda pelo mesmo período, por US$ 150 mil.

Acontece que, por mais que a soma dos valores a todas as demais despesas da Netflix totalize um número extremamente alto, a conta não é exatamente essa. O que acontece é que a empresa tem um sistema que não é exclusivamente seu e já é usado também por canais de TV e companhias do universo midiático, mas que a plataforma de streaming utiliza de uma forma que os economistas consideram inclusive bastante arriscada.

Esses novos contratos firmados não aparecem na contabilidade da empresa como despesas já lançadas. No balanço geral, essas negociações são apresentadas como "Compromissos e Contingências", de modo que só serão apresentadas oficialmente quando os produtos desses acordos chegarem de fato à plataforma.

Por exemplo: ter a Shonda Rhimes por 5 anos por US$ 150 milhões não significa tirar da conta da Netflix esse montante de uma única vez, imediatamente após o fechamento do contrato. Quando o primeiro produto feito a partir da produção de Shonda entrar na plataforma é que a despesa vai aparecer nos livros.

O que acontece é que a organização conta com um supercrescimento em assinaturas, que possibilitaria pagar essas novas contratações. Arriscado? Sem dúvida! Especialmente se observarmos o fato de que as obrigações da Netflix no final de 2017 correspondiam a uma queda de 151% da receita anual.

No dia 30 de junho de 2018, a gigante do streaming tinha US$ 18,4 bilhões em sua lista de contingências, porém apenas US$ 8,1 bilhões aparecem nas planilhas de balanço da empresa.

Isso tudo porque ela está apostando todas as fichas em conteúdo original — tanto que 85% de seu orçamento de conteúdo está direcionado justamente para produtos próprios, embora os espectadores passem 80% do tempo vendo conteúdo licenciado.

Embora seja corajosa no sentido de contar com mais novas assinaturas do que talvez devesse, a estratégia da empresa tem um bom fundo de sentido. A cada ano, o mercado de streaming cresce consideravelmente, na onda da Netflix, e com o passar do tempo outras empresas vêm entrando para o ramo. É o caso, por exemplo, da Hulu de The Handmaid's Tale, da própria HBO Go e dos canais da Disney e da Apple que estão em desenvolvimento.

Antes que tantos concorrentes entrem no páreo, a Netflix quer garantir a continuidade da hegemonia — ou, ao menos, manter o topo do pódio. Para isso, assume tais compromissos e contingências e garante nomes de peso em seu catálogo.

Basicamente, a Netflix vem usando um sistema bem brasileiro de quitar seus débitos: o de comprar agora e pagar depois, se possível bem parceladinho.

É preciso lembrar ainda que nem toda a receita da Netflix vem apenas das assinaturas mensais. A empresa conta com investidores que injetam recursos e parcerias comerciais, o que também ajuda a garantir que a Shonda e seus amigos não vão ficar sem salário!

Este texto foi escrito por Lu Belin via nexperts.