Após muitos anos com projetos de "Y: O Último Homem", série de quadrinhos criada por Brian K. Vaughan e aclamada pela crítica, sendo sondados por estúdios de Hollywood, a emissora FX decidiu confirmar o piloto e já começou a contratar um grande elenco para levar à televisão a história de Yorick Brown, um jovem que sobrevive a um apocalipse que elimina todo o gene y, mantendo vivos apenas o rapaz e seu macaquinho, Ampersand. Barry Keoghan (foto abaixo), Diane Lane e Imogen Poots já estão escalados para a adaptação.

Anteriormente, a ideia era transformar "Y: O Último Homem" em uma produção para o cinema, e nomes como Elijah Wood e Shia LaBeouf foram cogitados para o papel principal. Entretanto, a história não possui um estilo narrativo que se encaixaria bem em um único filme e dificilmente seria atrativa o suficiente para agradar ao público e gerar uma continuação. Em compensação, a história de Yorick Brown é excelente para se tornar série televisiva, ainda mais para os dias atuais.

1. A consolidação das adaptações dos quadrinhos

Quando surgiram os rumores de levar a obra de Brian K. Vaughan para as telonas, ainda não existia um sucesso tão grande das adaptações vindas dos quadrinhos, já que a Marvel Studios ainda estava engatinhando, e alguns sucessos soavam surpreendentes para o gênero, como o agora clássico Batman: O Cavaleiro das Trevas. Hoje, seja nas telonas ou na televisão há espaço para uma nova produção vindo das páginas do gibi.

A própria FX já possui uma ótima adaptação dos quadrinhos em sua programação atual: Legion, que tem um dos personagens mais complexos do Universo Mutante. Ainda há uma aceitação grande para gibis que fogem do mainstream nas adaptações da televisão, seja com Preacher chegando à sua terceira temporada, The Walking Dead com muito público em suas cinco temporadas iniciais ou até mesmo com heróis menos populares, como Fugitivos.

2. A narrativa de Brian K. Vaughan

O quadrinista é conhecido por criar histórias extremamente bem construídas, fazendo com que os personagens principais evoluam conforme os conflitos são inseridos na trama. Ele aprofunda bastante a personalidade dos coadjuvantes, fazendo com que seja mais compreensível a motivação de cada um em seus mundos, seja quando ele estava escrevendo "Fugitivos" para a Marvel ou nas aclamadas "Saga", "Paper Girls" ou em "Y: O Último Homem".

Ao mesmo tempo que há uma profundidade grande em seus personagens, o escritor não deixa de lado a construção de seu universo. Ele cria situações convincentes para cada estrutura social afetada por atos de enormes proporções, dando a sensação real entre causa e consequência.

3. Representatividade e debates sociais

"Y: O Último Homem" tem em sua essência narrativa vários debates sobre gênero, preconceito e igualdade social, já que a premissa coloca a humanidade em uma situação completamente nova ao ter apenas um homem vivo em todo o planeta Terra. Isso dá margem para o roteiro fazer vários questionamentos sobre como a sociedade que conhecemos seria impactada. Por exemplo, em que medida a vida das mulheres seria influenciada pela morte dos homens e como elas conseguiriam manter esse status quo ao saber que ainda existe um deles vivo.

Como a sociedade é formada com bastante enfoque em uma situação que coloca o homem em posição de privilégio, a trama demonstra vários setores entrando em colapso imediatamente, como a política americana, já que a grande maioria dos representantes é dizimada, e um plano de proteção do país precisa entrar em vigor. O próprio machismo presente no protagonista é colocado em foco em algumas situações, fazendo com que sua visão seja questionada em momentos de conflito, ainda mais quando percebe o quão errado ele pode ter agido.

4. Investigação internacional

Toda a crise política internacional de hoje pode ganhar presença na versão televisiva de "Y: O Último Homem", mesmo que ela seja baseada na primeira década do século XXI, já que atualmente os casos de espionagem internacional têm ganhando ainda mais destaque. Isso é totalmente compreensível considerando o tema, já que um mundo em colapso permite que as nações busquem criar uma nova ordem mundial, sem a presença dos homens.

Na trama dos quadrinhos, as mulheres de alguns países tentam se organizar para fazer com que suas nações consigam manter um pouco de harmonia social depois de o gene y ser exterminado, enquanto outras preferem tomar atitudes mais bélicas em relação ao futuro da humanidade, principalmente depois que é descoberta a sobrevivência de Yorick Brown.

Ao apostar em Y: O Último Homem, a FX entende muito bem a temática que a obra de Brian K. Vaughan explora e coloca suas fichas no showrunner Michael Green para conduzir o projeto. Ele já foi produtor-executivo de The River, Heroes e Deuses Americanos e escreveu os roteiros de Blade Runner 2049 e Logan; por outro lado, tem insucessos alarmantes, como Alien: Covenant e Lanterna Verde em seu currículo. Com um público mais maduro e receptivo para as adaptações dos quadrinhos, parece que enfim chegou a hora ideal de a jornada de Yorick Brown ganhar vida fora das páginas dos gibis.

Este texto foi escrito por Gustavo Rodrigues via nexperts.