A essa altura do campeonato, qualquer pessoa que acompanha um pouco o universo do cinema já percebeu que existe um grande distanciamento entre filmes que são pensados para agradar o grande público e aqueles desenvolvidos com um olho na estatueta do Oscar e em premiações similares.

Produções baseadas em quadrinhos, especialmente aqueles que contam histórias de super-heróis, costumam se encaixar perfeitamente na primeira categoria, enquanto dramas, romances, retratos históricos, biografias ou relatos de guerra parecem ser formados pelos ingredientes perfeitos para garantir a vaga no tapete vermelho.

Em 2009, no entanto, um filme mudou a receita e chegou para confundir a cabeça dos envolvidos, alterar esse cenário e unir todas as tribos: a versão de Christopher Nolan do Homem-Morcego.

Durante seu período de exibição, a produção alcançou a maior bilheteria da década, com US$ 1 bilhão, dos quais US$ 533 milhões foram apenas nos Estados Unidos. Para coroar o grande sucesso que o longa-metragem fez junto ao público, veio também um reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que nem mesmo a DC Comics esperava.

Naquele ano, Batman: O Cavaleiro das Trevas foi indicado ao Oscar em oito categorias – Melhor Fotografia, Melhor Edição, Direção de Arte, Maquiagem, Mixagem de Som, Efeitos Visuais, Edição de Som e Melhor Ator Coadjuvante (Heath Ledger) – e venceu em duas.

O fato de que um filme blockbuster tenha obtido tantas indicações à estatueta mais cobiçada do cinema mudou alguma coisa na forma como o mundo enxergava essa relação entre o cinema mais cult e mais aprofundado, com aquela famosa carinha de Oscar, e a maneira como se faziam os títulos mais populares – especialmente os de heróis.

Ter um diretor como Nolan certamente foi um ponto fundamental para essas transformações. Ele já havia despertado a atenção do público e da própria academia com Amnésia, em 2002, indicado como Melhor Roteiro Original e Melhor Edição, e emplacado uma recomendação como Melhor Fotografia com Batman Begins. Dois anos depois de Batman: O Cavaleiro das Trevas, lá estava Nolan mais uma vez, dessa vez alcançando a indicação na categoria principal com A Origem.

No entanto, seu estilo de queridinho da Academia também agrada o público, fazendo do diretor e roteirista a combinação perfeita para uma convergência de opiniões quase impossível quando o assunto é cinema.

Não foi à toa que, desde 2009, a Academia foi paulatinamente se abrindo cada vez mais a produções que geram frisson junto ao grande público, em especial a épicos, aventuras e filmes de super-herói. Assim, adaptações como Mulher-Maravilha, Star Wars e até mesmo Esquadrão Suicida apareceram na famigerada lista de indicados em diversas categorias e, inclusive, conquistaram algumas estatuetas.

Esse movimento, claro, não é de graça. Várias pessoas que passaram pela direção da organização já manifestaram um interesse em diminuir esse status de excessivamente cult da Academia para fazer com que o tapete vermelho atraísse um público cada vez mais amplo e diverso.

Apesar de tudo isso, no entanto, quando a relação de finalistas saiu, em 2009, o fato de Batman: O Cavaleiro das Trevas não figurar também entre os candidatos a Melhor Filme do ano gerou um grande senso de injustiça junto ao grande público. Afinal de contas, ele merecia estar ali.

Dark Knight entrou para a lista que já contava com tantos outros grandes filmes negligenciados pela premiação, e o impacto disso foi tão grande que, no ano seguinte, a Academia decidiu expandir a quantidade de títulos que concorreriam à categoria principal – de 5 para 10. Não se pode premiar todos, mas pelo menos reconhecer a importância de uma ou outra produção já é uma grande coisa.

Essa medida significou, para muitas narrativas independentes e até mesmo várias animações, a chance de figurar entre os grandões. É o caso, por exemplo, de Up: Altas Aventuras, indicado a Melhor Filme já no ano seguinte (2010).

Ironicamente, é graças a um blockbuster que títulos cult, como Lady Bird e Me Chame pelo Seu Nome, puderam concorrer na categoria de Melhor Filme da mais importante premiação do cinema mundial.

Este texto foi escrito por Lu Belin via nexperts.