A história humana é fonte inspiradora da arte, especialmente do cinema. Volta e meia, surgem filmes baseados em fatos reais, cotidianos ou não. Infelizmente, eles nem sempre são muito presos à realidade da época — pelo contrário.

É claro que ninguém espera que a obra seja completamente verdadeira, até porque existem perspectivas diferentes de um mesmo fato, o que garante várias "verdades". Além disso, há pequenos aspectos que ninguém repara mesmo. Apesar disso, filmes que se propõem a abordar um fato histórico bem que poderiam se preocupar mais com os detalhes (até para fins didáticos).

Então, apresentamos para vocês esta lista com alguns exemplos de longas que deslizaram nesse sentido. Não significa que sejam filmes ruins ou malfeitos, mas sim que alguns pontos são diferentes dos registros históricos reais. Confira!

1. Troia (2004)

O filme tem várias incongruências históricas, e algumas são bem notáveis. Ainda por cima, existiram várias cidades chamadas Troia, o que torna mais complicado determinar sobre qual delas é a história. Além disso, a lenda chegou a nós por meio das obras de Homero, que eram orais — ou seja, eram narradas para pessoas por diversos cantores diferentes, que viajavam e memorizavam os versos. Para piorar, os historiadores sequer têm certeza que Homero existiu — muitos defendem a teoria de que era um nome que vários artistas usavam.

Então, dá para dar um desconto para os produtores e o diretor Wolfgang Petersen. Mesmo assim, alguns erros chamam a atenção de quem observar mais detalhadamente. Por exemplo, eles colocam moedas nos olhos dos cadáveres, o que realmente era um costume grego — mas não naquela época, porque elas ainda não haviam sido inventadas. O pior é que os guarda-sóis que eles usavam eram bem modernos, com hastes de metal e tudo. Além disso, as armaduras e os equipamentos dos soldados também não correspondiam à época: se aproximam mais de tempos modernos, por volta dos séculos V e IV antes de Cristo.

2. 300 (2006)

Na época do filme, o filme do diretor Zack Snyder foi bastante elogiado. Até porque foi razoavelmente fiel aos quadrinhos de Frank Miller, que por sua vez se inspirou na real Batalha de Termópilas, que aconteceu por volta de 480 a.C. O elenco também favoreceu os elogios: temos Gerard Butler, Lena Headey e o brasileiríssimo Rodrigo Santoro.

E é aí que está o maior problema do longa: a representação dos persas. O personagem de Santoro, Xerxes, nunca teria se proclamado um deus: ele era um devoto fiel do Zoroastrismo, uma das primeiras demonstrações de crenças monotoístas do mundo — ou seja, com um Deus supremo e poderoso. Além disso, é óbvio que existiam mais de 300 gregos na batalha, por mais bonito que esse número soe. E, claro, a diferença da quantidade de persas para a dos gregos não era tão expressiva — sim, ainda eram bem mais, mas nada próximo de 1 milhão.

3. Gladiador (2000)

O clássico de Ridley Scott chegou a ganhar cinco estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator (para Russel Crowe, é claro) e Melhor Figurino. Isso faz você pensar que, logo, o filme seria bastante próximo da realidade, não é?

Infelizmente, não muito, a começar pela batalha de abertura. As famosas legiões romanas teriam se mantido em formação, porque era aí que estava a sua força. Além disso, o imperador Marcus Aurelius não morreu pelas mãos de seu filho Commodus, mas sim aos 59 anos, durante uma expedição de guerra.

E já que estamos aqui, uma curiosidade: no começo, ser gladiador era um entretenimento mortal que cabia aos escravos (de guerra, principalmente). Porém, com o passar dos séculos, se tornou um símbolo de status — e não mais necessariamente mortal — vencer uma luta, então até mesmo jovens nobres participavam de algumas batalhas cerimoniais. Existem registros de jovens mulheres gladiadoras, inclusive!

4. O Jogo da Imitação (2014)

O filme se passa em 1939, durante a Segunda Guerra Mundial — um tema bastante recorrente no cinema hollywoodiano. Mas, dessa vez, eles não vão para o campo de batalha: o foco são os matemáticos por trás do sistema de codificação.

Então, o diretor Morten Tyldum resolveu centrar a história no brilhante matemático Alan Turing (Benedict Cumberbatch), descrito como um homem esquisito e solitário que resolve o mistério da Enigma praticamente sozinho. É claro que havia uma equipe por trás do filme, e é compreensível que esse foco fique mais interessante para Hollywood — e, de fato, Turing era um gênio e um dos responsáveis pelo surgimento da Teoria da Computação.

Mas O Jogo da Imitação acabou escolhendo esconder a história de Gordon Welchman, um matemático que foi quase tão responsável quanto Turing pela quebra do código. Os motivos não foram divulgados (afinal, Welchman não é nem citado como parte do quarteto), mas pode ter relação com o fato de que o matemático foi perseguido pelo governo pós-guerra, após ter publicado detalhes dos procedimentos de quebra de códigos.

5. Alexandre (2005)

O filme de Oliver Stone se propôs a acompanhar a trajetória de Alexandre, o Grande, um rei da Macedônia (uma parte da Grécia) que conquistou territórios até chegar à Índia! O elenco traz atores como Angelina Jolie, Colin Farrell, Val Kilmer e Jared Leto. Mas tudo isso não serviu para garantir a fidelidade completa da história. O maior dos problemas é que os persas são mostrados como desorganizados, sendo que era justamente o oposto: o Império Persa era poderosíssimo, e foram necessários anos até que Alexandre conseguisse o derrotar.

6. À Espera de um Milagre (1999)

Não é um grande erro, mas certamente faria diferença no filme. O longa de Frank Darabont foi baseado no romance homônimo de Stephen King, mas deixou a desejar em relação a apurar os fatos da realidade. É que a trama se passa na Louisiana, em 1935, e todas as execuções acontecem na cadeira elétrica. Entretanto, esse estado só passou a usar essa ferramenta mortal em 1941! Não custava nada adiantar o enredo em 6 anos, né?

7. Coração Valente (1995)

Segurem seus corações: infelizmente, o clássico de Mel Gibson não é muito coerente com a história. William Wallace e Robert de Bruce de fato existiram, mas não chegaram a se conhecer — e o conhecido como Coração Valente (Braveheart), na verdade, era Robert. William também não teria como ter conhecido a Princesa Isabel, porque ela só chegou à família real 3 anos depois de ele ter sido morto.

Além disso, eles não usavam kilts, a saia escocesa que só foi popularizada bem mais tarde. Ah! Toda vez que você ouvir a gaita de foles tocando no filme, saiba que o som na verdade é da gaita irlandesa, em vez da escocesa. E, claro: ninguém pintava o rosto de tinta azul (pigmento azul era muito caro para ser desperdiçado assim!).

8. O Resgate do Soldado Ryan (1998)

O filme de Steven Spielberg pode ter ganhado seis estatuetas do Oscar e feito milhões de pessoas chorarem, mas não é perfeito. Não se trata nem de uma questão histórica; é de física mesmo. Logo no começo, na cena da batalha na praia de Omaha, dois soldados estão debaixo d'água, tentando lidar com o equipamento pesado. Então, eles levam um tiro e morrem — mas balas de rifle atiradas debaixo d'água não teriam força para isso tudo.

9. Lincoln (2012)

De novo Steven Spielberg, e dessa vez, com algo muito mais notável. Na cena em que o Congresso vota a 13ª emenda — que aboliu a escravidão nos EUA —, todas as cadeiras da Câmara estão ocupadas. Mas na verdade, seis delas deveriam estar vazias, por conta dos parlamentares que se retiraram. Além disso, no filme, dois representantes de Connecticut votam contra a emenda, o que não aconteceu: os quatro votaram a favor mesmo. Menos dramático, é claro.

10. Argo (2012)

O filme se passa durante a Crise do Irã, na década de 80, quando um agente da CIA bola um plano mirabolante para resgatar estadunidenses reféns na embaixada. No filme de Ben Affleck, é dito que as embaixadas britânica e neozelandesa se recusaram a ajudar a americana, mas isso não é verdade. Na vida real, o britânico Arthur Wyatt chegou até a ganhar uma medalha pelo risco e pela coragem que ele demonstrou ao auxiliar os reféns.

Este texto foi escrito por Verenna Klein via nexperts.