Street Fighter: A Última Batalha está longe de ser uma obra-prima do cinema. Ainda assim, 25 anos atrás, o filme partiu de um orçamento de US$ 33 milhões para um faturamento de US$ 105 milhões — uma grande surpresa para uma adaptação extremamente criticada até mesmo pelos fãs do jogo. O espanto é ainda maior agora, que sabemos que Jean-Claude Van Damme fez o filme inteirinho sob o efeito de cocaína.

A polêmica revelação é do diretor do filme, Steven de Souza, em uma entrevista ao jornal The Guardian. De acordo com ele, durante as filmagens o ator estava em nível tão intenso de vício que chegava a utilizar 10 gramas de cocaína por dia, gastando cerca de US$ 10 mil por semana com as drogas.

Seu comportamento durante esse tempo era totalmente errático e digno das estrelas de cinema mais problemáticas. Atrasos, ausências, chegadas ao set totalmente dopado... O astro fez de tudo e chegou a ganhar até uma espécie de babá para garantir que ele se comportasse, mas nem isso funcionou.

"O estúdio chegou a contratar uma pessoa para lidar com ele, mas infelizmente esse indivíduo era, ele também, uma má influência. Jean-Claude dizia que estava doente com tanta frequência que eu tinha que ficar voltando para o roteiro para pensar com quem poderíamos filmar no dia. Eu não podia apenas sentar e ficar esperando por ele", contou o diretor.

E, se você é do tipo que odeia segunda-feira, saiba que o Van Damme também é gente como a gente quando o assunto é esse. Segundo De Souza, nesse dia da semana era sagrado o ator nem aparecer no set. "Em duas ocasiões, os produtores autorizaram que ele fosse até Hong Kong, e nas duas vezes ele voltou depois do combinado".

O ator, que tinha uma suíte presidencial só para ele com uma academia instalada especialmente para que pudesse fazer seu preparo físico para o filme, deu trabalho para todo mundo no set, não apenas o diretor. As gravações começavam apenas quando ele queria; ele só saía do quarto quando achava que estava pronto.

De acordo com Keith Heygate, primeiro assistente de direção, houve inclusive uma ocasião na qual o ator simplesmente não aparecia para gravar e, quando a equipe finalmente conseguiu falar com ele, Van Damme teria dito "Eu tenho que bombar meus músculos" e não foi gravar.

"Ele era um homem interessante, mas extremamente difícil para se trabalhar — há várias histórias que eu não posso compartilhar. Em uma das ocasiões, ele estava no trailer e muito bravo. Meu assistente não conseguiu fazer com que ele saísse, eu também não; tive que chamar o produtor Chad Rosen para tirá-lo de lá. Então ele saiu com uma garrafa de champagne. Eu disse a ele que era contra a saúde e a segurança ter álcool no set e, daquele ponto em diante, ele me odiou."

Embora tenha se aproximado mais de Van Damme do que os outros, até mesmo Robert Mammone, que fez Blanka no filme, admite que não foram semanas muito tranquilas. "Ele tomava muito tempo por cena, algumas previstas para apenas 1 hora poderiam levar meio dia para serem filmadas. Mas, por algum motivo, talvez por termos sido os melhores amigos do filme, ele era bom comigo. Fomos jantar, saímos, e ele me deu meu primeiro charuto cubano. Um dia, estávamos sentados nas poltronas de maquiagem, e ele me disse: 'Robert, você fede como o Tony Curtis'. Acho que ele quis dizer 'essência'."

Obstáculos

Mas o estrelismo e o problema de Van Damme com a cocaína não foram os únicos desafios enfrentados pelo diretor De Souza e sua equipe na produção de Street Fighter.

Com um orçamento modesto para uma produção ambiciosa, ele bem cedo percebeu que ia ser apertado fazer tudo que precisava. Seu plano inicial de contratar os atores com antecedência para que eles pudessem começar a treinar artes marciais e ganhar massa muscular antes das gravações foi por água abaixo quando ele teve que diminuir o tempo de trabalho de grande parte do elenco para pagar os salários dos dois principais nomes escolhidos: o próprio Van Damme, como Guile, e Raul Julia, com Bison.

A alternativa foi começar pelas cenas internas, de diálogos, antes de ingressar nas de luta, para que eles pudessem se preparar melhor. Com uma projeção de filmagem de 10 semanas, isso foi realmente muito difícil, já que eles teriam entre 3 e 6 semanas para se tornarem verdadeiros guerreiros das artes marciais.

Longe de manter sua rotina de filmagem dentro do esperado já por conta dos treinamentos, De Souza e sua equipe também enfrentaram outra questão séria: Raul Julia, em pleno tratamento contra seu câncer de estômago, não estava nada bem; magro e abatido, estava sem chances de gravar, muito menos cenas de ação. Assim, todas as cenas com ele foram adiadas para o final. Raul Julia inclusive faleceu no ano seguinte.

Todos esses adiamentos e os treinamentos sendo feitos do jeito que dava — ou nem acontecendo — fizeram com que boa parte das cenas fossem realizadas na base da improvisação. Byron Mann, que interpretou Ryu, nunca tinha participado de um filme, embora fosse ator. Em uma das cenas em que ele deveria enfrentar Vega em uma luta de facas, foi pego de surpresa e teve que aprender no mesmo dia a manipular o instrumento.

"Um dia eu estava almoçando, e um assistente de direção veio até mim e disse: ‘Ei, você está pronto para sua luta com facas?’. Eu disse: ‘do que você está falando? Eu não sei nada sobre isso'. Fui a um dos figurantes tailandeses, um dublê, e perguntei se ele poderia ajudar. Na hora, ele me ensinou o que sabia — e é isso que você vê no filme. E era uma espada de lâmina, não era de plástico. Eu poderia ter me machucado e a outros", relatou.

Realizadas na Austrália e na Tailândia, as filmagens enfrentaram o desafio do calor e da umidade na segunda, de forma que, em parte do filme, as pessoas estavam mais magras do que no restante. Na Tailândia, graças a um golpe militar que acontecia na época, as estradas estavam fechadas, e o cast precisava ir e voltar viajando de barco através de canais.

"Depois de dez dias em Bangkok, nós estávamos seis dias atrasados nas gravações, foi torturante. Os produtores diziam: 'vocês estão atrasados!', então eu apliquei um antigo truque de John Ford: abri o roteiro e risquei uma página. Pronto, estamos de volta nos eixos."

O problema é que você não pode simplesmente arrancar parte do roteiro sem que as cenas percam um pouco do sentido, e isso confundia ainda mais os atores. "Eu não conhecia o personagem, nunca tinha jogado o game, eu não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo", conta o ator Roshan Seth, o Dhalsim. Em determinado ponto, ele simplesmente parou de pensar e começou a seguir as instruções e fazer o que lhe diziam.

Considerando tudo isso, até que o resultado não é tão desastroso, não é mesmo?

Este texto foi escrito por Lu Belin via nexperts.