A segunda temporada de The Handmaid's Tale pode até ter chegado ao fim, mas as especulações sobre o futuro da história de June e cia. estão só começando. A série, que em sua primeira fase, em 2017, já havia conquistado o público, a crítica e um amontoado de prêmios, conseguiu manter o fôlego e o frescor em 2018 e ainda descolou a indicação a nada menos do que 20 Emmys.

Para consolar os fãs que ficarão órfãos das atrocidades de Gilead nos próximos meses, nós trouxemos os melhores trechos da recente entrevista de Bruce Miller, produtor-executivo, ao portal The Hollywood Reporter. Na conversa, Miller comentou detalhes do episódio de encerramento da segunda temporada e revelou o que podemos esperar de The Handmaid's Tale em 2019. Confira!

Maternidade, identidade e futuro da série

Para começar a entrevista, Miller respondeu a uma pergunta sobre o que considerava ser o tema central da segunda temporada: “A maternidade, claro. Durante todo o tempo, June (Elisabeth Moss) tentou descobrir como ser a melhor mãe nas circunstâncias impostas por Gilead, e parte disso foi trabalhando para que Serena (Yvonne Strahovski) fizesse um bom papel na criação da pequena Holly. Não há como negar que há uma conexão da maternidade com a questão da importância dos nomes, de como as identidades são destruídas em Gilead”, disse.

Até mesmo a decisão final de June, de não deixar Gilead e entregar Holly nas mãos de Emily (Alexis Bledel), foi fruto de uma reflexão sobre o que a personagem, e não os roteiristas, faria naquele momento. “Discutimos muito sobre as situações pelas quais June passou. Ela não imaginava que fosse ver Hannah de novo, mas viu. Também não imaginava que Luke (O. T. Fagbenle) estivesse vivo, mas ele estava. Foram muitas descobertas, e uma delas foi a de que ela é mais forte e poderosa do que imaginava, de que ela pode ter um impacto no que está acontecendo”, revelou.

Prova de que a questão da maternidade foi central na segunda temporada é que a lembrança de Hannah perguntando por que a mãe não havia ido mais longe na tentativa de resgatá-la seguiu perturbando June. “Ela quer usar esse momento para lutar pela filha que permaneceu em Gilead”, contou.

Na terceira temporada, The Handmaid's Tale seguirá girando em torno do tema da maternidade e da busca de June pela retomada da sua identidade, mas os desdobramentos dessa história não devem parar por aí e certamente trarão uma dose extra de adrenalina. Segundo Miller, “June chegou a um ponto em que está pronta para lutar, se erguer e colocar em prática muito do que aprendeu nesses 3 anos de Gilead: sobrevivência, manipulação, estratégia. Tudo isso vai ser usado por June para ferir Gilead e ajudar Hannah”.

June: mais forte a cada episódio

Questionado a respeito da sobreposição quase perfeita entre as cenas de abertura e encerramento da temporada, em que June encara a câmera, Miller revelou que a conexão foi proposital, mas que cada cena tem uma essência diferente: “No começo da temporada, June estava se despindo do que a aprisionava em Gilead. No fim, ela aceita as vestes de uma aia como parte do seu disfarce. Aquela roupa já não a oprime nem define mais, mas ela aceita usá-la como parte de algo maior, da percepção de que é o momento de aproveitar as circunstâncias para agir”.

Apesar disso, o fim da segunda temporada não significa que a terceira esteja engatilhada. Miller revelou que as discussões sobre a sequência da série acabaram de começar, mas que June certamente terá mais controle da situação no próximo ano. O episódio que foi ao ar na última quarta-feira (11) dá pistas de que ela não tem mais tanta paciência – e que já ganhou até certa liberdade – para lidar com os Waterford e as privações de Gilead. “A terceira temporada vai ser sobre resistência, sim, mas sobre insurgência, também. June vai explorar as fraquezas de Gilead”, disse o produtor.

Passagem de tempo

Indagado sobre uma possível passagem de tempo entre a segunda e a terceira temporadas, Miller disse que ainda não há nada decidido a respeito, mas aproveitou para comentar que esse tipo de transição não precisa necessariamente ocorrer entre uma temporada e outra. “As passagens de tempo acontecem no momento em que são necessárias. Além disso, há que se considerar o fato de que trabalhar transições temporais entre temporadas já não tem lá muito efeito diante dos novos hábitos da audiência, que pode simplesmente maratonar tudo de uma vez”, disse.

Serena: finalmente transformada?

Dona de um dos desfechos mais brutais da segunda temporada, Serena deve voltar transformada na próxima fase de The Handmaid's Tale. De acordo com Miller, “ela se tornou a mãe que sempre quis ser. Ela coloca a ‘filha’ em primeiro lugar quando defende que as meninas sejam alfabetizadas e comete uma transgressão consciente quando decide ler um trecho da Bíblia diante daqueles homens. Não é uma transformação?”, questionou. Segundo o produtor, a história de Eden (Sydney Sweeney) também exerceu influência sobre Serena: “Depois que uma menina correta, que tentou seguir as regras, foi morta naquelas circunstâncias, o que esperar do futuro de sua filha?”.

Os desdobramentos da segunda temporada certamente fizeram Serena questionar muita coisa, e talvez o único ponto positivo que ela possa extrair da vida em Gilead seja a sua rápida experiência como mãe. “No começo, Serena pensou que seria parte da estrutura de poder, mas tudo o que lhe restou foi assumir uma maternidade que não lhe cabia – e ali vimos outra Serena, muito distinta do que Gilead esperaria de uma esposa de comandante. Ela aprendeu muito, inclusive sobre o marido”, contou Miller, que, questionado em seguida sobre a possibilidade de Serena protagonizar uma fuga, despistou o repórter respondendo apenas que isso seria de fato interessante.

Comandante Lawrence e Tia Lydia

Para aqueles que gostaram da chegada do Comandante Lawrence (Bradley Whitford) nos dois últimos episódios, Miller tem uma boa notícia: o personagem seguirá na série. O produtor explicou que Lawrence, que esquematizou a fuga de Emily e June, foi peça fundamental na criação da política econômica de Gilead, mas não tinha a real noção de que as coisas funcionariam daquele jeito na prática. Não que Lawrence seja um anjo, mas certamente é alguém que se sente traído e culpado pela maneira como Gilead afetou a vida de tantas pessoas, então pode usar isso para agir contra o sistema. “Ele é o tipo de personagem de que mais gostamos: interessante e consistente, mas imprevisível nos aspectos mais básicos e importantes”, ponderou Miller.

Aproveitando o gancho de Lawrence, Miller falou sobre o desfecho assustador de Tia Lydia (Ann Dowd), esfaqueada por Emily: “Acalmem-se, Tia Lydia não morreu! Quando entreguei o roteiro a Ann, também enviei um email com o assunto ‘Tia Lydia não está morta’. Uma faca não vai acabar com alguém com a personalidade dela”, brincou, fazendo menção ao fato de que Tia Lydia é muito importante para o enredo de The Handmaid's Tale para simplesmente desaparecer da trama de uma hora para a outra.

Miller sobre Elisabeth Moss e a recepção da série

Já no fim da entrevista, Miller admitiu que, além de ser fã do trabalho de Margaret Atwood, considera Elisabeth Moss a escolha perfeita para interpretar June: “Ela dá vida a June de um modo muito especial”. Quanto à recepção da série, o produtor revelou que adora saber o que as pessoas publicam sobre The Handmaid's Tale nas redes sociais. “Às vezes, a gente se surpreende com o que o público aceita com facilidade e o que leva mais tempo para digerir. Estou sempre atento a isso e muito sensível à percepção do que deve ou não ser mostrado, ao que faz sentido trazer à tona em um contexto que já é horrível por si só. Não queremos tornar as coisas ainda mais difíceis, então preferimos mostrar só o que é necessário [da brutalidade de Gilead]”, disse.

Miller garantiu que, na terceira temporada, os espectadores vão ter o gostinho de um senso legítimo de enfrentamento, de “bendita seja a luta”. “Certamente haverá altos e baixos como nas duas primeiras fases da história, mas o espírito rebelde de June não está para brincadeira. Suas vitórias serão mais viscerais”, revelou.

Previsão de fim da série

Questionado sobre quantas temporadas seriam necessárias para esgotar o enredo de The Handmaid's Tale, Miller disse que será cuidadoso. “Não gosto de séries que se estendem além do necessário, que pedem para ficar quando já deveriam ter saído. Quando chegarmos ao fim de The Handmaid's Tale, quero que o nosso produto final seja uma bela peça de ficção, uma história bem contada do início ao fim, como o livro. Quero que seja um trabalho o mais bem acabado possível, e só”, concluiu.

Este texto foi escrito por Rodrigo Sánchez via nexperts.