A segunda temporada de The Handmaid's Tale chegou ao fim. O episódio de encerramento, “The Word”, foi liberado pela Hulu na última quarta-feira (11) nos Estados Unidos, mas a season finale já havia sido exibida dois dias antes em um evento fechado que reuniu convidados, produtores e atores da série em Los Angeles.

Na ocasião, a revista Variety conversou com o elenco e alguns executivos da produção para saber suas opiniões sobre os desdobramentos da segunda fase da história – que já não reflete mais os acontecimentos do livro de Margaret Atwood, esgotados na primeira temporada – e a conexão do enredo com a vida real.

Para a equipe de The Handmaid's Tale, não há maneira melhor de contar a história de uma sociedade misógina, racista e classicista como a de Gilead do que estabelecendo uma conexão direta com a vida fora das telas. “Nós espelhamos o enredo em regimes fascistas reais, presentes no mundo em que vivemos, e tentamos amarrar tudo na narrativa”, disse Warren Littlefield, produtor-executivo da série.

Apesar da conexão entre ficção e realidade, The Handmaid's Tale não quer parecer profética. Para Bruce Miller, showrunner da série, os redatores têm de fazer mais do que simplesmente se inspirar em manchetes na hora de escrever os roteiros. “Eu peço a eles que pensem nas piores coisas que alguém seria capaz de fazer, e é terrível que ainda assim haja tanta conexão com a realidade”, desabafou.

Na entrevista, Miller também pediu aos espectadores que “permitam à série se tornar menos relevante”, o que seria possível se as pessoas se envolvessem mais no debate político e se comprometessem a tentar transformar as coisas a ponto de a ficção não se parecer tanto com a realidade. “Votem em novembro!”, disse, convocando o povo norte-americano a participar das eleições legislativas deste ano.

Brutalidade de The Handmaid's Tale não é gratuita

O ar sombrio da segunda temporada de The Handmaid's Tale está presente em cada detalhe das brutalidades enfrentadas pelos seus personagens – especialmente por June (Elisabeth Moss), que, entre um episódio e outro, encarou um estupro do Comandante Waterford (Joseph Fiennes) mesmo estando grávida e deu à luz sua filha Holly, fruto de uma relação secreta com o Olho Nick (Max Minghella).

À Variety, Moss revelou que a cena do parto foi uma das mais difíceis da segunda temporada. “June se movimentou além da conta, naquela cena. Ela não costuma se mover tanto e, de repente, estava indo de um lado para o outro, batendo portas. Foi muito físico, exaustivo”, disse. Para o showrunner Bruce Miller, porém, a brutalidade explorada nas cenas de The Handmaid's Tale nunca é gratuita.

“Só mostramos aquilo que temos de mostrar. No começo da temporada, por exemplo, apelamos para uma falsa execução. Não teríamos alcançado o mesmo efeito se tivéssemos mostrado as aias voltando para o Centro Vermelho dizendo algo como ‘Nossa, não acredito que eles não nos mataram!’. Nós tivemos de mostrar aquilo, evidenciar os motivos pelos quais June se sentia daquele jeito. Esse tipo de coisa está acontecendo agora mesmo no mundo todo, e não é porque você não pode vê-las que elas não existem”, disse Miller.

Durante a entrevista, Yvonne Strahovski, que interpreta Serena Joy, também comentou sobre as consequências da brutalidade de Gilead para sua personagem. A atriz se questionou se os espectadores seriam capazes de manter algum tipo de simpatia por Serena depois do seu consentimento e participação no estupro de June grávida. Para ela, esse ato de violência simplesmente não tinha como passar batido.

“Muita gente comentou que se sentiu enganado pela Serena, especialmente depois de ter acreditado tanto na possibilidade de que ela fosse boa. De repente, ela agiu daquele jeito e acabou fazendo com que muitas pessoas decidissem que ali não havia mais volta. Mas The Handmaid's Tale é uma série que confronta o que há de mais horrível e brutal. Nosso papel é representar as atrocidades que acontecem fora das telas em uma narrativa distópica e ficcional que tenta provocar transformações, espelhar a vida que acontece de verdade. É uma experiência com a qual temos de aprender”, disse.

Madeleine Brewer, que interpreta Janine, concorda com Yvonne. “A série enfatiza o tempo todo que a experiência de Gilead é vivida de maneiras distintas por cada um que está ali naquele contexto. Cada um reage de um jeito, e essa é outra maneira de refletir a realidade. Acho que é como aqui fora: cada pessoa que assiste ao telejornal, por exemplo, digere o que é apresentado ali de um jeito muito particular, desenvolve as suas próprias reações. Ao menos para Janine, há certos dias em Gilead que não são só desgraça. Ela sabe – e precisa – olhar para o que há de bom, ou vai ficar louca. Acho que isso reflete bem a nossa realidade política, hoje. Se você não parar todos os dias para notar o que há de bom no seu entorno, você está frito”, refletiu.

Este texto foi escrito por Rodrigo Sánchez via nexperts.