Seja por razões temáticas ou (na verdade) orçamentárias, não é sempre que temos a oportunidade de assistir a um filme de ficção científica que não seja de língua inglesa, apesar de sobrarem bons e influentes exemplos oriundos do Japão. Produção original da Netflix, Órbita 9 tenta ser uma exceção à regra em sua intenção de colocar a Espanha no rol do gênero, mas resulta em mais uma obra genérica incapaz de desenvolver seu interessante argumento por completo.

Escrito e dirigido por Hatem Khraiche, um curta-metragista de longa data, o longa se passa em um futuro onde a jovem Helena (Clara Lago, vista em O Passageiro) passou seus 20 anos de vida no espaço a bordo de uma nave para colonizar o planeta chamado Celeste e tendo conhecido apenas seus pais, que, por razões de sobrevivência, decidiram abandoná-la para lhe poupar oxigênio e, assim, cumprir sua missão.

Esperando a vinda do engenheiro responsável pela manutenção da nave, Helena não só vê em Álex (Álex González, o Riptide de X-Men: Primeira Classe) o terceiro humano que ela conhece, como também desperta uma curiosidade um tanto quanto passional pelo rapaz. No entanto, após um tempo de permanência curto dentro da nave, a saída de Álex nos revela um programa espacial controverso e, a cada dia que o engenheiro acompanha remotamente a rotina da moça, mais ele é motivado a voltar e revelar para a solitária Helena um mundo ao qual nunca fora exposta; todavia, algo que vem a ser de igual perigo para ela.

Em seus vagos 94 minutos de filme, Órbita 9 procura estabelecer em cena tudo o que é necessário e comum em qualquer ficção científica, sem deixar de especular sobre teorias da conspiração e problemas ambientais que motivaram a criação do projeto Órbita com discursos amenos sobre a acidez dos mares, comprometendo toda a vida marinha; o crescimento populacional que acarretou na transformação de bons bairros em favelas violentas; a restrição heteronormativa para os programas de colonização.

Entre propostas de vilões com sofríveis diálogos bilíngues e uma ou outra passagem notavelmente criativa (seriam as salas das "conversadoras" homenagens a Paris, Texas?), a narrativa exibe bons momentos quando se empreende em contar as descobertas de Helena perante os prazeres de um mundo real que sempre lhe negaram, mas Khraiche é precipitado demais e não tarda em abandonar tais ideias em sua sugestão e adiantamento de outros conflitos iminentes que tampouco são aprofundados.

Enquanto as interações entre Clara Lago e Álex González resultam em um relacionamento pra lá de morno que, no final das contas, está ali apenas para conduzir o tema da narrativa e seus desenlaces previsíveis, a experiente Belén Rueda (O Orfanato, Mar Adentro) faz o possível para que o filme tenha um mínimo de empatia, porém é inegável a gratuidade de sua personagem perante o conjunto da obra e suas constantes fugas do tema. As decisões dos chefões da Órbita vão e voltam a cada cena com sua canastrice maléfica, e todo o mistério ao redor de Helena fica cada vez mais desinteressante ao espectador.

Admirável por recorrer a locações de arquitetura extravagante em sua sugestão futurista e com cenários abusando das luzes de gás neon, ainda que entregue uma fotografia com um tratamento de cor desleixado a julgar por sua insaturação que sugere senão uma distopia tão lugar-comum, Órbita 9 parece até coisa de Black Mirror considerando as semelhanças de tempo, espaço e temática, mas as críticas sociais evidentes não têm o mesmo impacto aqui.

Por fim, o filme é mais um título que, integrante de um catálogo de congêneres recentes e de baixa aprovação como Perdidos no Espaço, Aniquilação, Mudo, Altered Carbon e The Cloverfield Paradox, demonstra que já passou da hora de a Netflix se ater mais à qualidade do que à quantidade.

Este texto foi escrito por Thiago Cardoso via n-Experts.