Quando Arquivo X estreou, em 1993, poucas séries serviram de inspiração – Além da Imaginação, Kojak e Twin Peaks são alguns exemplos. Porém, o programa conseguiu criar uma linguagem própria, separando episódios da grande história da série (a tal mitologia) daqueles que podiam ser vistos isoladamente (chamados de “monstros da semana”).

Isso serviu de inspiração para uma infinidade de séries de suspense que a seguiram, como Supernatural, Buffy e Lost. A 11ª primeira temporada de Arquivo X – a segunda depois de um hiato de 14 anos –, entretanto, não conseguiu repetir a mesma originalidade e genialidade das primeiras temporadas, vivendo de saudosismo e, ainda pior, de referências a séries que a imitaram.

Em "My Struggle III" (11x01), vimos que os eventos mitológicos da temporada anterior eram apenas alucinações na cabeça de Scully. Fonte da imagem: Reprodução/FOX

Homenagear outros programas não é uma novidade em Arquivo: em sua exibição original, existiram episódios especiais, como o crossover com Millenium, uma versão de Cops, o da boneca assassina etc. Mesmo assim, eram episódios esporádicos em temporadas com mais de 20 capítulos.

Também me incomodou, de forma particular, a frase “The Truth is Out There” do final da abertura ser trocada em praticamente todo episódio nesta temporada. Esse é o lema da série, com raríssimas alterações nas temporadas anteriores. Por que diachos mexer em detalhes como esses?

Em "My Struggle IV" (11x10), aparece Salvator Mundi, que significa “Salvador do Mundo” em latim. Fonte da imagem: Reprodução/FOX

11ª temporada: saudosismo, falta de originalidade e excesso de homenagens

A última temporada, porém, parece homenagear um produto da cultura pop a cada episódio: Além da Imaginação em "The Lost Art of Forehead Sweat" (11x04), It em "Familiar" (11x08) e Black Mirror em "This" (11x02) e "Rm9sbG93ZXJz" (11x07). Resgataram até o ator de O Sexto Sentido em "Kitten" (11x06)! Haja referências e saudosismo!

Outro detalhe foram os excessos de piadas e situações cômicas. Ao longo das 9 primeiras temporadas, os episódios mais engraçadinhos pontuaram alguns momentos, mas nesta temporada a coisa foi levada a um nível jamais visto. Pô, teve até vibrador da Scully em um dos episódios!

Em "Rm9sbG93ZXJz" (11x07), vimos o vibrador da Scully: precisava? Fonte da imagem: Reprodução/FOX

Ainda assim, foi uma temporada regular. "Plus One" (11x03) já é um novo clássico de Arquivo X, com Mulder (David Duchovny) e Scully (Gillian Anderson) investigando uma série de mortes que parecem ter sido provocadas por clones das vítimas. Por trás delas, estariam os irmãos Judy e Chucky, interpretados em dose QUÁDRUPLA por Karin Konoval, a mesma atriz que esteve no mais assustador episódio de Arquivo X já feito ("O Lar", 4x02).

"The Lost Art of Forehead Sweat" é outro episódio inspiradíssimo desta temporada, com a dupla de agentes do FBI lidando com o Efeito Mandela, isto é, com a ideia de um grupo de pessoas se lembrando de eventos que nunca aconteceram. Com duas aberturas, este é um dos episódios mais engraçados já feitos em Arquivo X. Brian Huskey, como o agente Reggie Something, está hilário como um dos “fundadores” dos arquivos X no FBI. Ainda assim, é um episódio para agradar os fãs, com inúmeras referências do passado e vários flashbacks de cenas icônicas.

Os “originais” de Arquivo X, em "The Lost Art of Forehead Sweat" (11x04): episódio foi o melhor da temporada. Fonte da imagem: Reprodução/FOX

A mitologia capenga e o fim (será?)

O problema maior desta temporada – será a última? – está nos episódios mitológicos. Em "My Struggle III" (11x01), "Ghouli" (11x05) e "My Strugle IV" (11x10), nós finalmente descobrimos o que aconteceu ao filho de Mulder e Scully, além de vermos a ameaça de um vírus mortal ser disseminado em todo o planeta.

Uma das grandes dificuldades de Arquivo X sempre foi a de resolver grandes questões da série – quem se lembra da patacoada que foi o desfecho do caso Samantha, em "Closure" (7x11)? Pois então, o final de William, o suposto filho dos agentes, é mais satisfatório, mas cheio de falhas.

Quer dizer que ele acabou se tornando apenas mais um monstro da semana dentro da mitologia de Arquivo X? E que depois de passar mais de 16 anos o procurando, Scully simplesmente abre mão dele ao descobrir que se tratava de um experimento com DNA alienígena para criar um super-humano? Por favor, né?

William (Miles Robbins) se tornou só mais um “monstro da semana” de Arquivo X. Fonte da imagem: Reprodução/FOX

Os eventos do último episódio foram muito corridos por conta disso. O plot twist final – Scully grávida de Mulder – também parece ter sido jogado apenas para agradar os fãs mais antigos, sem uma explicação melhor para isso. Por mais que seja um milagre, é importante lembrar que dentro da série a agente do FBI está com 53 anos! E se era para agradar, cadê o maldito beijo, Chris Carter? A última vez que os agentes se beijaram foi há DEZ ANOS, naquela porcaria de segundo filme.

Ainda assim, trata-se de uma possível conclusão para a série, já que Gillian Anderson declarou que não pretende voltar para uma nova temporada. Se "My Strugle IV" for de fato um fim, que encerramento mais mequetrefe, não acham? Mataram Skinner, Monica Reyes e Canceroso, além de uma série de figurantes, de uma forma grotesca, mesmo que fique difícil de acreditar que todos realmente estão mortos. Foi um final satisfatório por resolver questões inacabadas, mas que deixará um gostinho quase amargo na lembrança.

O final da temporada até criou um possível gancho para mais episódios, com William ressurgindo vivo após levar um tiro na testa, mas valeria a pena insistir nessa história sem a presença da Scully? Já tivemos duas temporadas (a 8ª e 9ª) praticamente sem o Mulder que foram bem mixurucas... A pior coisa de uma série é quando ela não sabe a hora de parar.

E Arquivo X parou no passado.

Será que finalmente acabou?

Este texto foi escrito por Diego Denck especialmente para o Minha Série.

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