A Netflix estreou no começo deste mês de junho a estranhíssima e curiosa série de ficção científica Sense8, realizada pelos irmãos Wachowski, a dupla responsável por filmes como Matrix, A Viagem e O Destino de Júpiter, e pelo produtor J. Michael Straczynski (Babylon 5).

O programa apresenta oito personagens, de etnias e origens diferentes, que se descobrem interligados mentalmente – o que permite que eles se comuniquem e “emprestem” habilidades especificas um ao outro.

Esse conceito, aparentemente complicado, se traduz com muita simplicidade na trama, e é talvez o elemento menos importante da série. São as histórias individuais dos personagens que movimentam a primeira temporada de Sense8 e que devem conquistar os espectadores.

Fonte da imagem: Divulgação/Netflix

Os irmãos Wachowski têm encontrado dificuldade em agradar o grande público desde o sucesso de Matrix, mas podem ter alcançado a redenção com a ousada Sense8. O programa é bastante diferente de tudo que há por aí e aborda questões polêmicas do mundo contemporâneo de forma humana e sensível.

Uma característica que chama a atenção em primeiro momento, por exemplo, é a presença de vários personagens gays e também de uma transexual (uma das sensate) na trama. Faz sentido: Lana Wachowski, que realizou a transição de gênero em 2008, escreveu a maior parte do roteiro da série.

É por isso que a narrativa da personagem Nomi se destaca na temporada, abordando com a devida relevância o preconceito que ela sofre por conta de sua identidade sexual e a perseguição que sente da sociedade heteronormativa. Sense8 é bastante política, ativista e coerente com as questões da comunidade LGBT.

Multiculturalismo e relações interpessoais

Contudo, além do conceito ficcional de mentes conectadas e do ativismo LGBT, o discurso principal da série reside mesmo nas relações humanas, na capacidade do olhar pelo outro, de se relacionar verdadeiramente com outras pessoas, de entender as diferenças e as particularidades de cada um.

É nesse sentido que Sense8 é uma série ousada; é difícil imaginar outro programa que consiga estabelecer esse nível de empatia entre os personagens, capaz de transmitir essa reflexão sobre os relacionamentos interpessoais no mundo contemporâneo.

E não apenas isto. Ao representar histórias de oito personagens em diferentes regiões do planeta, a série se define pelo multiculturalismo, no retrato de aspectos e características próprios de cada local – criando um grande painel sobre diversas formas de viver.

Nesse aspecto, ao apresentar a narrativa dos sensate, lidando com seus problemas sociais, pessoais ou familiares (em geral são essas questões que afligem os personagens), Sense8 desenha uma visão macro sobre a cultura humana. De certa forma, é como se – através dos personagens conectados – o programa “abrisse a mente” dos espectadores.

Fonte da imagem: Divulgação/Netflix

What’s Going On?

É assim, através da interrelação de histórias dramáticas e da sensibilidade no retrato dessas conexões, que Sense8 conquista algo inédito. No decorrer da temporada, os irmãos Wachowski ensaiam sequências de incrível ressonância – não pela ação, nem pela ficção científica, mas pelo sentimento humano compartilhado.

Um desses momentos, e certamente um ponto alto da temporada, ocorre ainda no quarto episódio, quando Riley coloca a música “What’s Up?” do 4 Non Blondes para tocar em seu iPod. Ao mesmo tempo, o personagem Wolfgang (interpretado por Max Riemelt) canta o hit em um karaokê em Berlim. Logo, todos os personagens se conectam com a canção – e talvez assim dão início a uma revolução!

Claro, nem tudo é perfeito. Ao final da temporada, algumas narrativas permanecem abertas e sem resolução, o que pode ser frustrante caso a série não consiga uma renovação para o segundo ano. Não descobrimos, por exemplo, os desfechos de histórias particulares de alguns sensate – mas o fato de ficarmos na expectativa e querendo saber mais dos personagens mostra que Sense8 foi muito bem sucedida em seu objetivo, nos fazendo relacionar com um mundo plural, diversificado e multicultural.

E você, já conferiu a nova série da Netflix?