Na última quinta-feira, dia 16, foi ao ar o primeiro episódio de Força-Tarefa, o novo seriado policial da Globo. Explorando um tema importante para a sociedade brasileira, a série teve um bom começo, dentre erros e acertos e, o mais importante, tem tudo para amadurecer e se tornar uma grande realização da televisão aberta.

Direção

Um dos pontos fortes da direção foi o investimento em boas imagens artísticas, que ajudaram a contar a história, sem precisar ter uma fala que dissesse a mensagem diretamente.

Um exemplo disso foi a apresentação de Jaqueline, namorada do tenente Wilson, quando ela entra no táxi dele e os dois começam a flertar. Na cena seguinte, temos mais explícito que ela é a namorada dele pela foto dos dois abraçados (apesar disso já estar um tanto óbvio). O recurso não é original, mas é bem mais interessante do que se os dois apenas se encontrassem e tivéssemos a cena de um beijo seguido de alguma fala do tipo “como foi o seu dia, meu amor?”.

Outra cena com uma imagem artística interessante foi a da Marta, a mulher do policial corrupto, contando os sonhos dela e do marido de viajarem pelo mundo: para essa cena aparecia uma pintura na parede e ela virada de costas para a câmera, olhando o quadro. Além disso, tivemos também bons jogos de claro e escuro em diversas cenas do episódio.


Esse táxi ainda pode render boas histórias.


Por outro lado, tivemos de tudo um pouco em relação aos problemas relacionados com a direção: cenas sem propósito, como os motoqueiros encontrando o helicóptero, ou Marta dormindo em cima de uma mesa — já não bastava mostrar que ela só tinha uma televisão no chão e um engradado para sentar em cima?

Outro ponto baixo foi a mudança brusca entre cenas completamente opostas: por exemplo, logo depois da uma cena triste (com a trilha sonora óbvia) temos a mudança brusca para a cena no barzinho, com Wilson, sua namorada e uma música de fundo animada. Essa transição poderia ter sido mais leve.

E a cena final foi a que carregou a maior partes dos problemas, não tendo uma boa edição e um fim um tanto previsível.

Trilha sonora e Abertura

Em geral, a trilha sonora não saiu do óbvio, com músicas previsíveis — e até bregas — para expressar tristeza, alegria, suspense... Enfim, um aglomerado de clichês.



Mas um bom ponto foi a abertura da série. Para os fãs de Titãs, foi uma boa surpresa a série abrir com a música “Polícia”. Pode ter sido uma escolha óbvia, mas não deixou de ser interessante. A edição das cenas na abertura ficou boa, sendo uma chamada forte para a série.

Elenco

A atuação do elenco, em geral, foi boa, pelo menos melhor do que a atuação em 9MM: São Paulo, que foi muito menos natural. O problema de 9MM: São Paulo são os atores, já emForça-Tarefa, o elenco está bem, ficando as maiores falhas para a direção e o roteiro.

E não podemos deixar de comentar: qual é o grande preconceito que muitos têm contra Murilo Benício? A atuação dele foi boa dentro da série, assim como a de Milton Gonçalves. Talvez devamos deixar de lado o preconceito contra as novelas e seus personagens e olhar verdadeiramente para o trabalho dos atores.


Selma, uma personagem que vale a pena investigar.


Um destaque de atuação vai para Hermila Guedes, que interpreta a policial Selma, na cena em que temos a reunião da corregedoria e ela se defende de comentários dos colegas com uma piadinha tipicamente masculina.

Além disso, essa é uma personagem que tem um grande potencial para ser desenvolvida: uma mulher fazendo um trabalho predominantemente masculino e rodeada de homens é sempre um assunto interessante e que vale a pena ser discutido.

Enredo

O enredo poderia ter sido mais elaborado, ainda mais se lembrarmos que o episódio piloto deve fazer o máximo para conquistar a audiência. Se as pessoas não gostarem do primeiro episódio, dificilmente vão voltar a assistir a série.

Por isso, roteiro pecou por apresentar uma história fraca para o episódio piloto. Desdobramentos óbvios (como o corpo cremado não ser o do policial foragido) são o fim da picada para séries de investigação.

Apesar disso, o episódio até manteve um suspense sobre a inocência ou não da mulher do policial corrupto. Mas talvez tivesse sido melhor se ela soubesse onde estava o marido e fugisse com ele depois de um tempo — aí teríamos uma boa surpresa.

Melhores Momentos

As cenas de reunião da corregedoria foram algumas das mais interessantes, talvez porque ficamos mais perto dos personagens e conhecemos melhor seu trabalho. A camaradagem e o entrosamento da equipe foi um ponto bom da apresentação dos personagens.


Cenas de reunião da corregedoria, algumas das melhores.


E o melhor de tudo foram as cenas do “fantasma” do padrinho Jonas interagindo com Wilson. Aliás, um bom destaque para a atuação fica para Rogério Trindade, fumando seu cigarro e com seu buraco de bala na testa. A inserção desse fantasma, como uma maneira de contar os conflitos internos de Wilson, foi muito bem feita, um verdadeiro ponto alto da série.

Expectativas

Entre erros e acertos, Força-Tarefa aparece como uma boa realização original da televisão aberta. Fica a expectativa de que os personagens sejam mais explorados ao longo desta primeira temporada, já que temos tantos policiais na corregedoria. Além disso, fica a esperança de que haja melhores roteiros nos próximos casos a serem investigados.

Poderíamos terminar essa análise fazendo inúmeras comparações com seriados americanos de investigação, mas isso seria totalmente injusto. Nos Estados Unidos, há um investimento muito maior nesse tipo de produção televisiva do que aqui, o que significa que eles têm uma boa bagagem de experiência.


Um bom começo, mas tem muito a melhorar.


Por fim, Força-Tarefa se apresenta como um bom começo para a Globo: temos um bom tema original (“a polícia da polícia”) e o seriado tem tudo para amadurecer e ganhar público, principalmente por colocar em debate uma questão importante para a sociedade brasileira — a corrupção policial.