Rick and Morty repentinamente se tornou uma das animações adultas mais populares da internet, fazendo com que até o McDonald’s entrasse na onda das piadas da série para trazer de volta o molho szechuan, criado com exclusividade para a promoção do longa Mulan, em 1998. A ação publicitária não deu certo devido à demanda gigantesca do público, gerando a revolta dos fãs mais fervorosos. Mas o que há de tão bom na produção de Justin Roiland e Dan Harmon para conquistar tantas pessoas? Roteiro.

Esse é o ponto crucial de sucesso que faz de Rick and Morty um dos maiores fenômenos televisivos da atualidade. Primeiro, porque a própria arte não é das mais detalhadas e suaves para conquistar o espectador. Isso não é um recurso que faria diferença para o que torna a obra tão cativante. Tudo que há de brilhante está no texto de Roiland e Harmon, algo que faz com que até a crítica especializada tenha se apaixonado pelas histórias malucas da família Smith. Das três temporadas já concluídas, a menor taxa de aprovação do Rotten Tomatoes é para o segundo ano, mas com os incríveis 95%, quase a mesma porcentagem da audiência.

Segundo, um dos pontos de sucesso no texto da equipe de roteiristas é conseguir utilizar uma boa quantidade de referências culturais com tanta desenvoltura, conquistando uma geração que ama procurar easter eggs em séries e filmes. Por exemplo, o segundo episódio utiliza os longas A Hora do Pesadelo e A Origem como base da trama, mas há exemplos mais caóticos, como o capítulo “Total Rickall”, que gera até um frame de homenagem a Onde está Wally?. Vingadores, Jogos Mortais, Parque dos Dinossauros, David Cronenberg, Voltron, Community, Mad Max, Uma Noite de Crime etc. Tudo isso já fez parte das aventuras dos protagonistas, e muito mais pode se encaixar na insanidade que a franquia permite explorar.

Entretanto, Rick and Morty não é tão fácil de apreciar logo no primeiro episódio. No meu caso, tive muitos problemas para criar gosto pela produção, seja por causa do nonsense cujo conteúdo inteligente eu não conseguia absorver ou até mesmo pela forma como eles se comunicam, com balbucios e gaguejados, propositalmente criados pela dublagem de Justin Roiland para os protagonistas. Em compensação, quanto mais eu assistia à série, mais instigado eu ficava em ver os capítulos que faltavam e depois rever os que não havia amado à primeira vista.

Com o tempo, eu percebia que existia uma dualidade interessante na história, já que ela acompanha a vida inocente do “herói” Morty, ao mesmo tempo que o Rick toma milhares de atitudes que são imorais a ponto de até a classificação de anti-herói não fazer sentido, restando a ele apenas a posição de vilão.

As personalidades opostas dos dois protagonistas são efetivas para a função de cada um deles no funcionamento da história. Morty é em essência o espectador entrando nessa jornada maluca de descobrimento do Universo, enquanto Rick é o vilão imoral que desafia qualquer regra da sociedade porque nada importa para ele e ainda é capaz de fazer tudo, já que seus conhecimentos sobre o Universo beiram a onisciência. Naturalmente, os fãs mais jovens e imaturos podem desejar ser incrível como o cientista, mesmo não enxergando tantos problemas mentais e familiares que ele carrega.

Cada episódio de Rick and Morty possui situações bizarras que deixam Family Guy, Futurama e Simpsons no chinelo. Por exemplo, Rick prefere se transformar em um picles para evitar a terapia em família, enquanto em outro capítulo Summer vira funcionária do Diabo, que abre uma loja de objetos amaldiçoados gratuitos para causar o mal aos clientes. Como o roteiro sempre inclui momentos surpreendentes, é impossível esperar tramas previsíveis, o que é algo muito incomum para os dias atuais, ainda mais quando tantas produções são obras derivadas de outros conteúdos.

Ao mesmo tempo que o nonsense surreal é um elemento dominante, ainda há traços de realismo que são essenciais para o funcionamento da série. Apesar de Rick and Morty serem os protagonistas, o restante da família Smith é tão participativa quanto, ainda mais na terceira temporada. Summer ganha cada vez mais espaço e, assim, se torna mais próxima das maluquices do avô; Beth sofre com a relação matrimonial formada desde a adolescência, mas mostra a força que o marido não tem; enquanto Jerry é o elemento de maior fragilidade da família, algo que o próprio filho se tornaria caso Rick não fosse tão presente na vida do neto.

Embora os elementos familiares sejam ótimos alicerces para construir um realismo em que os espectadores consigam enxergar características compreensíveis em uma família cercada por situações absurdas, a série ainda trabalha com elementos filosóficos e sociológicos sempre que possível. O próprio lema de Rick é permeado pelo pensamento niilista que predomina na animação. “Nada existe com um propósito, nada pertence a algum lugar, tudo vai morrer”, frase inspirada em Jean-Paul Sartre. A frase é dita por Morty em um dos momentos mais chocantes da primeira temporada.

O roteiro que abraça o niilismo precisa de impacto para funcionar, e isso acontece em vários momentos violentos, algo que talvez só fosse possível para uma animação televisiva do canal Adult Swim. Em um dos episódios, Rick e Jerry estão em um local que possui um campo de imortalidade, mas esse sistema falha especificamente quando uma criança está prestes a levar um tiro, o que causa uma perplexidade instantânea. Em um momento de profunda tristeza, o cientista cogita o suicídio, e você o vê falhar.

Quando os roteiristas querem falar sobre elementos básicos da sociedade, eles os inserem no subtexto da história. No meu episódio favorito, “The Ricklantis Mixup”, nenhum dos personagens principais é o foco, mas sim a realidade conhecida como Cidadela, local habitado apenas por várias versões de Rick e Morty. Trata-se de um capítulo que fala sobre eleição, propaganda, desigualdade social, polícia, pobreza, estereótipo etc., tudo isso construindo algo dinâmico, divertido e ao mesmo tempo aflitivo. Escravidão, ensino escolar, tratamento aos animais de estimação e puberdade são apenas outros temas levantados pelo texto da produção.

A genialidade no roteiro de Rick and Morty é a chave do sucesso que fez da série um dos maiores fenômenos televisivos e da internet, gerando milhares de fãs que adoram discutir teorias sobre os significados que podem estar no subtexto de cada capítulo ou até mesmo na obsessão de conseguir um molho szechuan. Para os espectadores, resta torcer que Justin Roiland e Dan Harmon mantenham a excelência da criação nos próximos anos, já que a expectativa em relação a ela se tornou monstruosa.

Este texto foi escrito por Gustavo Rodrigues via N-Experts