Crítica: novo Homem-Aranha leva 'Sessão da Tarde' para os filmes Marvel

  • Por Minha Série em 04/07/2017 - 16:31

O Amigo da Vizinhança finalmente está totalmente integrado ao universo cinematográfico Marvel (ou Marvel Cinematic Universe — MCU).

Homem-Aranha: Volta ao Lar estreia nesta semana no circuito brasileiro e reinicia a trajetória de Peter Parker nas telonas. O aracnídeo promove uma aventura leve e divertida, uma verdadeira “Sessão da Tarde” para toda a família, cortesia da parceria entre Sony/Columbia e Marvel Studios.

A trama reúne elementos dos filmes dos Vingadores — desde a invasão alienígena em Nova York, passando pelos Tratados de Sokovia de A Era de Ultron, até Capitão América: Guerra Civil — e mostra o Homem-Aranha (Tom Holland) nos seus primeiros dias como vigilante, tentando impressionar o Homem de Ferro/Tony Stark (Robert Downey Jr.) para integrar a equipe dos Maiores Heróis da Terra.

Fonte da imagem: Divulgação/Marvel Studios, Sony Pictures

Enquanto se esforça para esconder seu segredo da bela Tia May (Marisa Tomei), Peter precisa enfrentar a ameaça emergente do Abutre (Michael Keaton), tirar boas notas no colégio e ainda conquistar o coração de seu crush, Liz (Laura Harrier).

O melhor Homem-Aranha

Estamos falando do mais interessante aracnídeo dos cinemas. Tudo bem que Tobey Maguire fez um excelente Peter Parker e Andrew Garfield era divertido como Homem-Aranha, mas essa versão ainda não consome seu lado trágico nem é o experiente herói das revistas. O personagem de Tom Holland é mais “pé no chão”, um típico adolescente new yorker do Queens.

Essa é uma decisão acertada; afinal, o personagem é tão querido por todos justamente porque é palpável: ele mora com a tia, sofre bullying no colégio, não consegue ficar com a gatinha popular, é pobre e salva todo mundo sem que ninguém possa saber. Ele é o nerd outsider, o gênio escolar do início de suas histórias nos quadrinhos e alguém que poderia estrelar qualquer um dos filmes de John Hughes nos anos 80.

Fonte da imagem: Divulgação/Marvel Studios, Sony Pictures

Somado a tudo isso, ele tem uma motivação bem diferente do que a culpa “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, que o assombra em todas as suas adaptações: o fato de ele querer ser um Vingador muda tudo e deixa toda a experiência mais ensolarada. Aqui ele encarna o Peter “bipolar”, que é mais contido quando está com a cara nos livros, mas que se torna desinibido e aventureiro, livre, ao colocar a máscara.

Alta tecnologia e nerdices

Como é de praxe em todas as histórias do Homem-Aranha, ciência e tecnologia são itens constantes na aventura. Todas as armas e os aparatos dos vilões, especialmente do Abutre e de Shocker (Bokeem Woodbine), envolvem invenção e ficção científica.

Fonte da imagem: Divulgação/Marvel Studios, Sony Pictures

O traje de Peter — cortesia das indústrias Stark — é cheio de truques e em boa parte da projeção é possível ver muitas dessas surpresas. A faceta nerdy da história também aparece nas sessões de laboratório e em uma competição matemática, entre outras passagens.

Coadjuvantes fazem a festa

Se Tom Holland por si só é uma atração como o Homem-Aranha, seus colegas de elenco também dão um show à parte. A já citada Tia May representa a família que o personagem sempre prezou e deixa para trás aquela imagem ultrapassada de uma velhinha inocente que fica impassível em seu apezinho. Seu melhor amigo, Ned Leeds (Jacob Batalon), funciona como um constante alívio cômico e é mais um “olhar humano” — a nossa visão — sobre todo esse universo heróico.

Muitos achavam que Tony Stark roubaria atenção demasiada, mas ele aparece somente quando é realmente necessário e oferece um bom contraste entre experiência e o aprendizado de Peter. Happy Hogan (Jon Favreau, diretor do primeiro Homem de Ferro e um dos responsáveis pela criação do MCU) garante momentos hilários.

Momentos entre Peter Parker e Happy Hogan são hilários. Fonte da imagem: Divulgação/Marvel Studios, Sony Pictures

Pena que Michelle (Zendaya) não tenha mais tempo em cena, assim como Flash Thompson (Tony Revolori), pois as sequências desconcertantes que eles provocam ajudam a definir melhor a dualidade da personalidade de Peter/Aranha.

Um grande vilão

O Abutre de Michael Keaton talvez seja — juntamente ou até superior ao Loki de Tom Hiddleston — o melhor antagonista do MCU até o momento. Ele é bem construído e é resultado do próprio meio em que esse universo se tornou desde o primeiro Vingadores.

Suas motivações são verossímeis, assim como seus atos e progressão. Vale destacar que a galeria de vilões do Homem-Aranha é tão trágica quanto o protagonista — e o fato do Amigo da Vizinhança não se corromper, como acontece com seus oponentes — faz com que o herói brilhe mais ainda.

Fonte da imagem: Divulgação/Marvel Studios, Sony Pictures

Em certo momento é possível até mesmo ter empatia pelo Abutre e suas prerrogativas, o que o torna um adversário ainda mais perigoso. E grande parte da culpa disso é a atuação de Keaton.

Muitos easter eggs

Do começo ao fim do filme é possível identificar inúmeras homenagens à Casa das Ideias e à cultura pop. Da visão mais mundana sobre o universo dos heróis em “Marvels”, de Kurt Busiek e Alex Ross, passando pelo título “Damage Control”, uma agência de controle de danos causados por brigas entre superseres, até zoeiras com a DC Comics e referências a John Hughes, “De Volta ao Lar” é um prato cheio para os fãs mais devotados.

O título "Damage Control", da Marvel Comics, é um dos easter eggs no longa. Fonte da imagem: Divulgação/Marvel Studios, Sony Pictures

Além de duas cenas pós-créditos, muita gente vai notar que durante a própria história principal há vários ganchos a serem explorados, incluindo um bem discreto, que de certa forma confirma a presença de outro aracnídeo no MCU. Antes de ser acusado de cometer um spoiler, já adianto que isso é difícil de identificar e os leitores das revistas da linha Ultimate — extinto mundo paralelo da Marvel Comics — é que vão notar com mais facilidade.

Mas vale a pena?

O CEO do Marvel Studios, Kevin Feige, já havia adiantado que o diretor Jon Watts criaria algo como um “coming of an age movie”, ou seja, um filme que acompanha a evolução de um protagonista, da juventude à idade adulta — assim como a série “Anos Incríveis” ou a franquia “Harry Potter”, nas quais muita gente cresce junto com os atores e os personagens. E é isso que acontece aqui, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” nasceu para ser um 8 e não um 10, porque o melhor claramente está por vir.

Fonte da imagem: Divulgação/Marvel Studios, Sony Pictures

Esse é o começo da jornada, quando Peter Parker e seu alter-ego erram muito e precisam, mais do que nunca, do lado humano da história, da parte falível do herói. E isso é deliciosamente divertido, como as “Sessões da Tarde” — os “Ferris Buellers” e “Garotas de Rosa Shocking” — que marcaram a adolescência de muita gente. É um grande retorno. Bem-vindo ao lar, Amigo da Vizinhança.


Este texto foi escrito por Claudio Yuge para o Minha Série e o Tecmundo.

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