Assistimos ao primeiro episódio de Filhos da Guerra; entenda motivo do horário na Globo

  • Por Marcelo Rodrigues em 28/08/2015 - 00:38

O Pianista, Bastardos Inglórios, O Resgate do Soldado Ryan e até a franquia Indiana Jones. Faça as contas e veja que a Segunda Guerra Mundial e a história do exército nazista, apesar de representarem um período cruel da história, servem de pano de fundo para tramas de todos os formatos e estilos. A mais nova aposta da Globo no ramo de séries, Filhos da Guerra, também se baseia nessa temática, mas investe em um drama humano, sem julgamentos e, acima de tudo, bastante real.

Como o nome original, Unsere Mütter, unsere Väter – algo como “Nossa mães, nosso pais” –, já indica, o enredo segue um ritmo diferente do esperado para produções que contam sobre o confronto entre Aliados e Eixo. Aqui, conceitos como grandes heróis, exércitos de um homem só, equipes de soldados de elite e recursos similares são deixados de lado para mostrar como uma guerra pode mudar completamente a vida das pessoas, mesmo as que não estão envolvidas diretamente com tiros e explosões.

Assim, Filhos da Guerra retrocede no tempo e volta suas lentes para 1941, ano em que o exército de Adolf Hitler iniciou uma de suas campanhas mais ousadas em sua expansão territorial e busca por recursos: a invasão da Rússia. Nesse cenário, somos apresentados à história de um grupo de amigos em plena Alemanha nazista. As circunstâncias fazem com que cada um deles precise seguir seu próprio caminho, restando apenas uma promessa mútua que eles voltariam a se encontrar quando tudo estivesse acabado.

Há alguns dias, postamos uma matéria completa sobre a produção alemã de 2013, que tem um currículo recheado de prêmios – incluindo de melhor minissérie no International Emmy Awards. Porém, como sabemos que isso muitas vezes não é o bastante, fomos ao Rio de Janeiro, à convite da Rede Globo, para assistir antecipadamente ao primeiro episódio da série e trazermos nossa impressão sobre o material aos nossos leitores. E aí, pronto para um verdadeiro soco no estômago?

A outra história

A primeira e mais óbvia comparação a ser feita em relação a Filhos da Guerra é com uma das séries mais aclamadas e bem produzidas da HBO: Irmãos de Guerra (Band of Brothers). Isso porque a qualidade das imagens, o jogo de câmeras, a cenografia, os belos diálogos, a ação crua e o jeitão de “mais real que a realidade” são elementos que também estão presentes em abundância na obra alemã – mesmo que tenha um orçamento mais humilde que sua contraparte norte-americana.

Esse cuidado com a produção faz com que, desde o primeiro momento, você realmente seja transportado para a Alemanha dos anos 1940. As ruas estranhamente desertas, as pessoas mais desconfiadas e a constante sensação de insegurança sobre o conflito iniciado na Europa estão na cara do telespectador a todo momento, fazendo com que qualquer um possa respirar um pouco dos ares do período. A partir daí, o novo seriado adquirido pela Globo começa a se distanciar da cria de Tom Hanks e Spielberg.

Fonte da imagem: Divulgação/Rede Globo

Para começar, Filhos da Guerra é mais uma daquelas poucas peças que mira “o lado de lá” ao falar sobre a Segunda Guerra, tirando os olhos dos eternos soldados/heróis dos EUA e da Inglaterra para observar o ponto de vista dos “vilões” da história. Em segundo lugar, o título renova o tema já bem batido na TV e no cinema ao mostrar uma análise dos próprios alemães sobre algo que causa um misto de vergonha, revolta e humilhação ao seu povo até os dias de hoje.

Isso já aconteceu outras vezes, como é o caso da bela refilmagem alemã de A Onda (Die Welle, 2008), que usou o presente para revisitar conceitos do passado e discutir esse período. A série de 2013, porém, ao ir direto a um dos pontos mais conturbados da guerra – seja na Alemanha, no fronte ou nos campos de concentração –, mostra que a vida real é mais do que uma divisão exata entre o bem e o mal. Nesse ponto, os personagens em tela se provaram essenciais para passar a mensagem.

O quinteto dramático

É bem difícil não se interessar pela personalidade dos cinco jovens que protagonizam a trama: Wilhelm (Volker Bruch) é um filho exemplar e tenente vitorioso do exército nazista; Friedhelm (Tom Schilling), seu irmão, vive à sua sombra e questiona os motivos por trás da ascenção de Hitler; a sempre prestativa Charlotte (Miriam Stein) só quer ajudar seu país; a sensual Greta (Katharina Schüttler) ainda vê oportunidades nesse mundo em guerra; e Viktor (Ludwig Trepte) é um judeu que vê o cerco se fechando cada vez mais contra seu povo.

A história começa em junho de 1941, quando Wilhelm é chamado pelos seus superiores para liderar uma das unidades alemãs na investida em larga escala contra a Rússia, arrastando – a contragosto – o irmão caçula, recém-recrutado. Antes de partirem, os dois se juntam ao seus amigos de infância e prometem retornar para Berlim até o Natal. Uma foto tirada durante o encontro sela o acordo e grava em papel o que pode ser o último momento deles juntos – algo que fica cada vez mais claro com o passar dos meses.

Fonte da imagem: Divulgação/Rede Globo

O modo como a guerra afeta a todos eles é tanto o charme como o horror da série, e também o que vai fazer muita gente roer as unhas até o episódio seguinte. No longo trajeto até Moscou, por exemplo, o condecorado Wilhelm começa a desprezar as atitudes do irmão – que se recusa a atirar ou cooperar com a tropa em geral –, mas logo que a crueldade do exército alemão sob as ordens do Führer se torna progressivamente mais intensa, ele também passa a ficar abalado com a situação.

Longe do campo de batalha, a meiga Charlotte resolve se voluntariar como enfermeira e vê um lado ainda mais brutal dos conflitos na forma de feridos e mutilados. A segurança da capital alemã também se desfaz rapidamente aos olhos de Viktor, que tenta – em vão – convencer o pai de que eles não são tratados como iguais pelos nazistas. Enquanto isso, sua namorada, Greta, acaba se envolvendo em um caminho bastante perigoso para salvar a pele dele e, ao mesmo tempo, realizar o sonho de se tornar cantora.

Não vale desviar o olhar

A história vaga o tempo todo sobre cada um dos integrantes do quinteto e mostra de forma bastante natural como esse ambiente hostil vai moldando e alterando o caráter de cada um, determinando que escolhas eles têm pela frente. O ritmo é bastante ágil nas cenas em que a ação é o ponto central, mas desacelera com muita precisão para oferecer uma dose extra de carga emocional a conversas-chave entre personagens ou para dar destaque a cenas como a que ocorre no final do primeiro episódio.

Pois é, com a ambientação impecável e as vidas quase que reais em jogo, não espere que a produção pegue leve na hora de mostrar o lado visceral da guerra. Hospitais improvisados com camas sujas e com o chão banhado de sangue marcam presença na obra, assim como gritos agonizantes de soldados atingidos em meio ao tiroteio e decisões cruéis a respeito de crimes e regras da guerra. A violência não é gratuita – ela precisa estar lá –, mas se faz presente ou pelo menos sugerida em praticamente cada um dos 50 minutos do episódio.

Fonte da imagem: Divulgação/Rede Globo

No fim, se apenas esse primeiro capítulo é capaz de introduzir bem os personagens, apresentar o que o ano de 1941 significou para a Segunda Guerra Mundial e contar uma história de qualidade, a expectativa fica bastante alta para as outras partes da trama. Os mais aficionados pelo tema histórico têm ainda um prato cheio pela frente, podendo imaginar como alguns acontecimento conhecidos vão se desdobrar em tela e envolver o grupo de amigos.

Vale notar que, para quem está acostumado a conferir séries por serviços de streaming ou na TV paga – e não dispensa o combo de aúdio original e legendas –, a dublagem pode vir a causar um certo estranhamento de início. Entretanto, não deixe que isso afaste você, já que, além do bom trabalho dos dubladores, a performance dos atores e todo o esmero da produção ajudam – e muito – a mitigar qualquer preconceito com a versão brasileira da peça. Se dominar a língua alemã, fique tranquilo: basta ativar o SAP para curtir o idioma.

Planos para o futuro e explicações

Durante nossa visita à Globo, conseguimos conversar ainda com Paulo Egydio, gerente de programação da emissora e um dos responsáveis por trazer Filhos da Guerra ao Brasil. Ele jogou uma luz sobre o processo de escolha de títulos para a grade da emissora, relatando que ele e sua equipe assistem diariamente a toneladas de seriados, filme e outras produções – tanto localmente como em visita a feiras e eventos internacionais – antes de dar sinal positivo para qualquer aquisição.

No caso da obra alemã, a ideia foi engatar o material logo após o fim da exibição de Gotham para aproveitar a semana exata que marca os 70 anos do fim da Segunda Guerra. Para fazer o material se estender por todo o período, o canal reeditou a minissérie original – que tinha três episódios de 1h30 – e dividiu tudo em cinco partes de cerca de 50 minutos. Felizmente, a julgar por esse capítulo de estreia, o trabalho foi bem feito e o corte não deixou nada de fora ou atrapalhou o andamento da trama.

Ele também aproveitou o papo para explicar as dúvidas em relação ao horário de de Filhos da Guerra, que só vai ao ar depois do Programa do Jô. “É um slot que começou este ano, antes as séries só entravam nas férias do Jô. Quando começamos a perceber um potencial de audiência bom, um público mais fiel, que continuava lá, vimos que isso podia ser ampliado para o ano inteiro”, afirmou Paulo. O teor pesado da história – e a grade justa da emissora – também faria com que fosse impossível exibir esse conteúdo em outros horários.

Para quem pode ficar acordado até um pouco mais tarde e adora a possibilidade de poder curtir séries na TV aberta, a notícia vai além, já que o gerente de programação avisa que esse ritmo de uma produção nova atrás da outra deve se manter – variando entre produtos norte-americanos mais conhecidos e minisséries mais pontuais. Se quiser conferir esse pontapé inicial do canal com as minis, fique de olho em Filhos da Guerra, que terá exibição única entre os dias 31 de agosto e 4 de setembro.

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