Fonte da imagem: Reprodução/Editora AlephAtualmente, falar sobre uma televisão de qualidade nos Estados Unidos não é uma tarefa complicada, ainda mais com tantas produções marcantes no ar. No entanto, foi preciso percorrer um longo caminho para chegar a este nível.

A editora Aleph acaba de lançar no Brasil o livro de Brett Martin intitulado Homens Difíceis — Os Bastidores do Processo Criativo de Breaking Bad, Família Soprano, Mad Men e outras séries revolucionárias, que se mostra uma leitura obrigatória para quem quer conhecer mais a fundo como a TV norte-americana, especialmente os canais a cabo, chegaram a tal patamar de excelência.

Como fio condutor, a publicação acompanha especialmente o trabalho dos showrunners, figuras que se tornaram cada vez mais importantes à medida que a ideia de autoria também se consolidou nos programas serializados.

Dividido em três partes, Homens Difíceis não conta com esse título à toa. Na figura não apenas dos showrunners, mas também de cocriadores, executivos e até mesmo de astros como James Gandolfini, o texto mostra a relevância de homens que trouxeram suas ideias à tona e a defenderam até que elas fossem traduzidas em séries originais e com narrativas um tanto quanto polêmicas.

Não à toa, o prólogo narra exatamente um “sumiço” de Gandolfini dos sets de filmagem, ator retratado no livro como uma pessoa focada, tímida e com sérios problemas com drogas e álcool durante a produção de Família Soprano, fato este que serve como pano de fundo para entender a evolução que, segundo Martin, equivale “aos filmes de Scorsese, Altman, Coppola e outros haviam representado nos anos 1970”.

O começo

Na primeira parte, chamada “Anteriormente no Ar”, acompanhamos uma narrativa bastante expositiva, clara e didática dos primórdios elevisão até a grande mudança trazida pela HBO, que começou a produzir conteúdos originais e com temas arrojados (recheados de sexo).

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Para isso, o autor foca sua atenção em David Chase, a mente por trás de Família Soprano. Um dos componentes interessantes de Homens Difíceis é revelar a biografia dos showrunners em destaque, mostrando como a vida de cada um influenciou no trabalho que vemos em tela.

Fluidamente, o texto de Homens Difíceis retoma conceitos como o do episódio-piloto ao mesmo tempo em que segue trazendo o panorama do crescimento, em uma primeira instância, da HBO, para os leitores.

Showrunners em destaque

Na segunda parte do livro, cujo título é “A Fera que Há Nele”, Martin aprofunda um pouco mais o conceito dos protagonistas recheados de falhas, característica que veremos muito na televisão atual.

Somos ainda apresentados a mais atrações de destaque dentro do canal, como a de Alan Ball e sua Six Feet Under (A Sete Palmos) e de The Wire (A Escuta), produção que trouxe o mundo policial para o centro do universo dramático da TV. Na segunda, o grande foco fica por conta do realismo trazido para a tela, fruto da formação jornalística do criador da série, David Simon, e sua parceria com Ed Burns.

Fonte da imagem: Divulgação/HBO

Esta parte do livro se conclui com David Milch e sua Deadwood, apresentando a fase mais contundente da HBO e que mostra o quanto a emissora conseguiu influenciar o que vem a seguir.

O legado

Para completar, “Os Herdeiros” conclui a terceira e última parte de Homens Difíceis narrando, em especial, a criação de novos canais como o FX, a Showtime e a AMC.

Aqui, os destaques ficam por conta de Mad Men e de Breaking Bad, produções que seguiram o legado de trazer personagens complexos para a telinha fora dos limites da HBO, ao mesmo tempo em que mantinham a busca por qualidade em um meio conhecido por trazer apenas “entretenimento”.

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Apesar de colocar o foco em algumas das produções consideradas por Martin como as mais importantes, o autor não deixa de citar as mais variadas séries que permearam e ainda estão no ar nos canais norte-americanos. Isso dá a Homens Difíceis a grande vantagem de, mesmo sendo um livro bastante técnico e que revisa o que já foi exibido, ainda se manter atual e interessante.

A conclusão revela o destino dos principais profissionais selecionados para compor a narrativa e expõe tanto um cenário futuro positivo quanto mais sombrio, trazido por uma espécie de declínio da qualidade dos conteúdos originais.

Já pelo lado mais otimista, o destaque fica por conta das novas tecnologias. “Não parece ter fim o número de lugares em que ofertas de qualidade podem se apresentar. Em 2012, o impulso para realizar uma programação original era visível em toda parte, e não apenas entre redes de TV a cabo, mas também em todos os outros sistemas e plataformas de mídia”, completa Martin.

Fonte da imagem: Divulgação/AMC

No final das contas, Homens Difíceis — Os bastidores do processo criativo de Breaking Bad, Família Soprano, Mad Men e outras séries revolucionárias apresenta um panorama abrangente e sem meias palavras do que acontece no processo criativo, incluindo os problemas por egos inflados, frustrações e linhas de pensamento diferenciadas dentro das chamadas salas dos roteiristas.

Homens Difíceis tem tudo para se tornar um clássico instantâneo em um mundo ainda pouco estudado da TV. Portanto, vale a pena conferir.

Este livro foi gentilmente cedido para análise pela editora Aleph.